A escrava IsauraPart 13

Part 13

Com taes idéas Alvaro não podia deixar de ser abolicionista exaltado, e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma não pequena porção da herança de seos paes, tratou logo de emancipal-os todos. Como porém Alvaro tinha um espirito nimiamente philantropico, conhecendo quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submissão para o gozo da plena liberdade, organizou para os seos libertos em uma de suas fazendas uma especie de colonia, cuja direcção confiou a um probo e zeloso administrador. Desta medida podião resultar grandes vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o proprio Alvaro. A fazenda lhes era dada para cultivar, a titulo de arrendamento, e elles sujeitando-se a uma especie de disciplina commum, não só preservavão-se de entregar-se á ociosidade, ao vicio e ao crime, tinhão segura a subsistencia e podião adquirir algum peculio, como tambem poderião indemnizar a Alvaro do sacrificio, que fizera com a sua emancipação. Original e excentrico como um rico lord inglez, professava em seos costumes a pureza e severidade de um quaker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionavel, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegancia, e sobre tudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, proprios das almas elevadas e dos corações bem formados. Entretanto Alvaro ainda não havia encontrado até ali a mulher, que lhe devia tocar o coração, a encarnação do typo ideal, que lhe sorria nos sonhos vagos de sua poetica imaginação. Com tão excellentes e brilhantes predicados, Alvaro por certo devia ser objeto de grande preoccupação no mundo elegante, e talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o coração de mais de uma illustre e formosa donzella. Elle porém, igualmente cortez e amavel para com todas, por nenhuma dellas ainda havia dado o minimo signal de predilecção.

Pode-se fazer idéa do desencanto, do assombro, da terrivel decepção que reinou nos circulos das bellas pernambucanas ao verem o vivo interesse e solicitude, de que Alvaro rodeava uma obscura e pobre moça; a defferencia com que a tratava, e os enthusiasticos elogios, que sem rebuço lhe prodigalisava. Juno e Pallas não ficárão tão despeitadas, quando o formoso Paris conferio a Venus o premio da formosura. Já antes daquelle saráo, Alvaro em alguns circulos de senhoras havia fallado de Elvira em termos tão lisonjeiros e mesmo com certa eloquencia apaixonada, que a todas sorprehendeo e inquietou. As moças ardião por ver aquelle prototypo de belleza, e já de antemão chovião sobre a desconhecida e o seo campeão mil chascos e malignos apodos. Quando porém a virão, apezar dos contrafeitos e desdenhosos sorrisos, que apenas lhes roçavão a flor dos labios, sentirão uma desagradavel impressão pungir-lhes no intimo do coração. Peço perdão ás bellas, de minha rude franqueza; a vaidade é com bem raras excepções, companheira inseparavel da belleza; e onde se acha a vaidade, a inveja, que sempre a acompanha mais ou menos de perto, não se faz esperar por muito tempo. A belleza da desconhecida era incontestavel; sua modestia e timidez em nada prejudicavão a singela e nativa elegancia de que era dotada; o traje simples e mesmo pobre em relação ao luxo sumptuoso, que a rodeava, assentava-lhe maravilhosamente, e realçavão-lhe ainda mais os encantos naturaes. O effeito deslumbrante, que Elvira produzio logo ao primeiro aspecto, e o empenho com que Alvaro procurava fazer sobresahir os seductores attractivos de Elvira, como de proposito para eclipsar as outras bellezas do salão, erão de sobejo para irritar-lhes a vaidade e o amor proprio. Uma e outro devião ser naquella noite o alvo de mil olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados epigrammas.

Alvaro nem dava fé da mal disfarçada hostilidade, com que elle e a sua protegida,--podemos dar-lhe esse nome,--erão acolhidos naquella reunião; mas a timida e modesta Elvira, que em parte alguma encontrava lhaneza e cordialidade, achava-se mal naquella atmosphera de fingida amabilidade e cortezania, e em cada olhar via um escarneo desdenhoso, em cada sorriso um sarcasmo.

Já sabemos quem era Alvaro; agora travemos conhecimento com o seo amigo, o D^{r}. Geraldo.

Era um homem de trinta annos, bacharel em direito, e advogado altamente conceituado no foro do Recife. Entre as relações de Alvaro era a que cultivava com mais affecto e intimidade; uma intelligencia de bom quilate, firme e esclarecida, um caracter sincero, franco e cheio de nobreza, davam-lhe direito a essa predilecção da parte de Alvaro. Seo espirito pratico e positivo, como deve ser o de um consummado jurisconsulto, prestando o maior respeito ás instituições e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo antagonismo com as idéas excentricas e reformistas de seo amigo; mas esse antagonismo longe de perturbar ou arrefecer a reciproca estima e affeição, que entre eles reinava, servia antes para alimental-as e fortalecel-as, quebrando a monotonia, que deve reinar nas relações de duas almas sempre accordes e unisonas em tudo. Estas taes por fim de contas, vendo que o que uma pensa, a outra tambem pensa, o que uma quer, a outra igualmente quer, e que nada tem a se communicarem, enjoadas de tanto se dizerem--amen,--ver-se-hão forçadas a recolherem-se ao silencio e a dormitarem uma em face da outra; placida, commoda e somnolenta amisade!... De mais, a contrariedade de tendencias e opiniões são sempre de grande utilidade entre amigos, modificando-se e temperando-se umas pelas outras. É assim, que muitas vezes o positivismo e o senso pratico do D^{r}. Geraldo servião de correctivo ás utopias e exaltações de Alvaro, e vice-versa.

Da boca do proprio Alvaro já ouvimos por que acaso veio elle a conhecer D. Elvira, e como conseguio leval-a ao saráo, a que ainda continuamos a assistir.

--Meo pae,--dizia uma jovem senhora a um homem respeitavel, em cujo braço se arrimava, entrando na ante-sala, onde ainda nos conservamos de observação.--Meo pae, fiquemos por aqui um pouco nesta sala, em quanto está deserta. Ah! meo Deos!--continuou ella com voz abafada, depois de se terem sentado junto um do outro;--que vim eu aqui fazer, eu pobre escrava, no meio dos saráos dos ricos e dos fidalgos!... este luxo, estas luzes, estas homenagens, que me rodeião, me perturbão os sentidos e causão-me vertigem. É um crime que cometo, envolvendo-me no meio de tão luzida sociedade; é uma traição, meo pae; eu o conheço, e sinto remorsos... Se estas nobres senhoras adivinhassem, que ao lado dellas diverte-se e dança uma miseravel escrava fugida a seos senhores!... Escrava!--exclamou levantando-se--escrava!... affigura-se-me que todos estão lendo, gravada em letras negras em minha fronte, esta sinistra palavra!... fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta sociedade parece estar escarnecendo de mim; este ar me suffoca... fujamos.

Fallando assim a moça palida e offegante, lançava a cada phrase olhares inquietos em roda de si, e empuchava o braço de seo pae, repetindo sempre com anciosa soffreguidão:--Vamo-nos, meo pae; fujamos daqui.

--Socega teo coração, minha filha, respondia o velho procurando acalmal-a.--Aqui ninguem absolutamente pode suspeitar quem tu és.

Como poderão desconfiar, que és uma escrava, se de todas essas lindas e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela graça e prendas do espirito, nenhuma pode levar-te a palma?

--Tanto peor, meo pae; sou alvo de todas as attenções, e esses olhares curiosos, que de todos os cantos se dirigem sobre mim, fazem-me a cada instante estremecer; desejaria até, que a terra se abrisse debaixo de meos pés, e me sumisse em seo seio.

--Deixa-te dessas idéas; esse teo medo e acanhamento é que poderião nos pôr a perder, se acaso houvesse o mais leve motivo de receio. Ostenta com desembaraço todos os seos encantos e habilidades, dança, canta, conversa, mostra-te alegre e satisfeita, que longe de te supporem uma escrava, são capazes de pensar que és uma princeza. Toma animo, minha filha, ao menos por hoje; esta tambem, assim como é a primeira, será a derradeira vez que passaremos por este constrangimento; não nos é possivel ficar por mais tempo nesta terra, onde começamos a despertar suspeitas.

--É verdade, meo pae!... que fatalidade!...--respondeo a moça com uma triste oscillação de cabeça.--Assim pois estamos condenados a vagar de paiz em paiz, sequestrados da sociedade, vivendo no mysterio, e estremecendo a todo instante, como se o céo nos tivesse marcado com um ferrete de maldição!... ah! esta partida ha-de-me doer bem no coração!... não sei que encanto me prende a este lugar. Entretanto terei de dizer adeos eterno a ... esta terra, onde gozei alguns dias de prazer e tranquillidade! Ah! meo Deos!... quem sabe, se não teria sido melhor morrer entre os tormentos da escravidão!...

Neste momento entrava Alvaro na ante-sala percorrendo-a com os olhos, como quem procurava alguem.

--Onde se sumirião?--vinha elle murmurando;--terião tido a triste lembrança de se irem embora?... oh! não; felizmente ei-los ali!--exclamou alegremente, dando com os olhos nos dous personagens, que acabamos de ouvir conversar.--D. Elvira, Vª. Exª. é modesta de mais; vem esconder-se neste recanto, quando devia estar brilhando no salão, onde todos suspirão pela sua presença. Deixe isso para as timidas e fanadas violetas; á rosa compete alardear em plena luz todos os seos encantos.

--Desculpe-me,--murmurou Isaura--uma pobre moça creada como eu na solidão da roça, e que não está acostumada a tão esplendidas reuniões, sente-se abafada e constrangida...

--Oh! não;... ha-de acostumar-se, eu espero. As luzes, o esplendor, as harmonias, os perfumes, constituem a atmosphera em que deve brilhar a belleza, que Deos creou para ser vista e admirada. Vim buscal-a a pedido de alguns cavalheiros, que já são admiradores de Vª. Exª. Para interromper a monotonia das valsas e quadrilhas, costumão aqui as senhoras encantar-nos os ouvidos com alguma canção, aria, modinha, ou seja o que fôr. Algumas pessoas, a quem eu disse,--perdoe-me a indiscrição, filha do enthusiasmo,--que Vª. Exª. possue a mais linda voz, e canta com maestria, mostrão o mais vivo desejo de ouvil-a.

--Eu, senhor Alvaro!... eu cantar diante de uma tão luzida reunião!... por favor queira dispensar-me dessa nova prova. É em seo proprio interesse, que lhe digo; canto mal, sou muito acanhada, e estou certa que irei solemnemente desmentil-o. Poupe-nos a nós ambos essa vergonha.

--São desculpas, que não posso acceitar, por que já a ouvi cantar, e creia-me, D. Elvira, se eu não tivesse a certeza, de que a senhora canta admiravelmente, não seria capaz de expôl-a a um fiasco. Quem canta como Vª. Exª. não deve acanhar-se, e eu por minha parte peço-lhe encarecidamente, que não cante outra cousa, senão aquella maviosa canção da escrava, que outro dia a sorprehendi cantando, e affianço a Vª. Exª, que arrebatará os ouvintes.

--Por que razão não pode ser outra? essa desperta-me recordações tão tristes...

--E é talvez por isso mesmo, que é tão linda nos labios de Vª. Exª.

--Ai! triste de mim!--suspirou dentro da alma D. Elvira:--aquelles mesmos que mais me amão, tornão-se, sem o saber, os meos algozes!...

Elvira bem quisera escusar-se a todo transe; cantar naquella ocasião era para ella o mais penoso dos sacrificios. Mas não lhe era mais possivel reluctar, e lembrando-se do judicioso conselho de seo pae, não quis mais ver-se rogada, e acceitando o braço que Alvaro lhe offerecia, foi por elle conduzida ao piano, onde sentou-se com a graça e elegancia, de quem se acha completamente familiarizada com o instrumento.

0

Comments (0)

Sign in to leave a comment.
  • No comments yet. Start the conversation.