A escrava IsauraPart 15
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--Deixemos durar mais um dia--reflectia ella comsigo,--esta illusoria, mas ineffavel ventura. Sou uma condenada, que arrancão da masmorra para subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e poderosa; quando descer, serei de novo sepultada em minha masmorra para nunca mais sahir. Prolonguemos estes instantes; não será licito deixar passar ao menos em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte do infeliz condenado?... sempre será tempo de quebrar esta fragil cadeia de ouro, que me prende ao céo, e baquear de novo no inferno de meos soffrimentos.
Nesta indecisão, nesta lucta interna, em que sempre a voz da paixão abafava os dictames da razão e da consciencia, passarão-se alguns dias até áquelle, em que Alvaro os induzio por meios quasi violentos a acceitarem convite para um baile. Desde então Isaura entendeo que seria uma deslealdade, uma infamia inqualificavel, conservar por mais tempo o seo amante na illusão a respeito de sua condição, e que não havia mais meio de prolongar, sem desdouro para elles, tão falsa e precaria situação.
Era muito abusar da ignorancia do nobre e generoso mancebo! uma escrava fugida apresentar-se em um baile, e apavonar-se em seo braço á face da mais brilhante e distincta classe de uma importante capital!... era pagar com a mais feia ingratidão e a mais degradante deslealdade os serviços, que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado. Isto repugnava absolutamente aos escrupulos, da melindrosa consciencia de Isaura. É verdade, que Miguel atterrado pelas considerações, que Alvaro lhe fizera, vio-se forçado a annuir ao seo gracioso convite; Isaura porém guardára absoluto silencio, o que ambos tomárão por um signal de aquiescencia.
Enganavão-se. Isaura recolhida ao silencio não fazia mais do que tentar esforços supremos para sacudir o fardo daquelle disfarce, que tanto lhe pesava sobre a consciencia, rasgando resolutamente o véo, que encobria aos olhos do amante sua verdadeira condição. Por mais porém que invocasse toda a sua energia e resolução, no momento decisivo a coragem a abandonava. Já a palavra lhe pairava pelos labios entre-abertos, já tinha o passo formado para ir prostrar-se aos pés de Alvaro, mas encontrando pousado sobre ella o olhar meigo e apaixonado do mancebo, ficava como que fascinada; a palavra não ousava romper os labios paralysados e refluia ao coração, e os pés recusavão-se ao movimento como se estivessem pregados no chão. Isaura estava como o desgraçado a quem circunstancias fataes arrastão ao suicidio, mas que ao chegar á borda do precipicio medonho em que deseja arrojar-se, recua espavorido.
--Fraca e covarde creatura que eu sou!--pensou ella por fim esmorecida:--que miseria! nem tenho coragem para cumprir um dever! não importa; para tudo ha remedio; cumpre que elle ouça da boca de meo pae, o que eu não tenho animo de dizer-lhe.
Esta idéa luzio-lhe no espirito como uma taboa salvadora; agarrou-se a ella com soffreguidão, e antes que de novo lhe fraqueasse o animo, tratou de pôl-a em execução.
--Meo pae,--disse ella resolutamente, apenas Alvaro transpoz o portão do pequeno jardim,--declaro-lhe, que não vou a esse baile; não quero, nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.
--Não váis?!--exclamou Miguel attonito.--E por que não disseste isto ha mais tempo, quando o senhor Alvaro ainda aqui se achava? agora que já demos nossa palavra...
--Para tudo ha remedio, meo pae,--atalhou a filha com febril vivacidade--e para este caso elle é bem simples. Vá meo pae depressa á casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive animo de dizer-lhe; declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.
Dizendo isto, Isaura estava palida, fallava com precipitação, os labios descorados lhe tremião, e as palavras proferidas com voz convulsa e estridente, parecia que lhe erão arrancadas a custo do coração. Era o resultado do extremo esforço que fazia, para levar a effeito tão penivel resolução. O pai olhava para ella com assombro e consternação.
--Que estás a dizer, minha filha!--replicou-lhe elle--estás tão palida e alterada!... parece-me que tens febre ... soffres alguma cousa?
--Nada soffro, meo pae; não se inquiete pela minha saúde. O que eu estou lhe dizendo é que é absolutamente necessario, que meo pae vá procurar esse moço e confessar-lhe tudo...
--Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua provincia, entregue a teo senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas garras daquelle monstro! oh! Isaura, por quem és, não me falles mais nisso. Emquanto o sangue me girar nestas veias, emquanto me restar o mais pequenino recurso, hei-de lançar mão delle para te salvar....
--Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infamia, meo pae!... retorquio a moça com exaltação.--Como posso eu, sem commetter a mais vil deslealdade, apparecer apresentada por elle como uma senhora livre em uma sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras illustres pessoas souberem que hombreou com ellas, e a par dellas dançou uma miseravel escrava fugida...
--Cala-te, menina!--interrompeo o velho, incommodado com a exaltação da filha.--Não falles assim tão alto ... tranquilliza-te; elles nunca saberão de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra; ámanhã mesmo, se for possivel. Embarcaremos em qualquer paquete, e iremos para bem longe, para os Estados-Unidos, por exemplo. Lá, segundo me consta, poderemos ficar fóra do alcance de qualquer perseguição. Eu com o meo trabalho, e tu com as tuas prendas e habilitações, podemos viver sem soffrer necessidades em qualquer canto do mundo.
--Ah! meo pae! essa idéa de irmos para tão longe, sem esperança de um dia podermos voltar, me opprime o coração.
--Que remedio, minha filha!... já agora, ainda que tenhamos de ir parar ao fim do mundo, nos é forçoso fugir ás garras do monstro.
--Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor Alvaro, nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição, e das terriveis circumstancias que nos obrigão a andar assim fugitivos e disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer contra as perseguições.
--E quem nos affiança isso?... o mais certo é elle entregar-te ao desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida, se despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te á policia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade enganar a elle e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo de nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao baile, minha filha; é um sacrificio cruel, mas passageiro, a que devemos nos sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e se algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos verão o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciencia escrupulosa em demasia. Se ignorão quem tu és, a tua companhia em nada os pode infamar. Com isso não fazes mal a ninguem; é uma medida de salvação, que todos te perdoarião.
--Meo pae parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me absolutamente ao coração dar esse passo.
--Mas é preciso dal-o, minha filha, se não queres para nós ambos a desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desapparecermos de um dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas que começamos a despertar, tomarão muito maior vulto, e a policia pôr-se-há á nossa pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrificio na verdade, mas não será elle muito mais suave do que as perseguições da policia, a prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar em casa de teo senhor?...
Isaura não respondeo; seo espirito agitava-se entre as mais pungentes e amargas reflexões.
As palavras de seo pae a tinhão abismado em glacial e profundo desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar de duvidas e perplexidades, como fragil barca em meio de um oceano irritado, sacudida aos boléos por vagalhões desencontrados.
O grito de sua consciencia escrupulosa e delicada, a lisura e sinceridade de seo coração, que não podia accomodar-se com o embuste e a mentira, e uma especie de vago presentimento que lhe pesava sobre o espirito, a desviavão daquelle baile, e por momentos parecião fixar definitivamente a sua resolução; e firme neste proposito dizia comsigo mesma:--não, não irei.
Por outro lado as considerações de seo pae, que parecião tão razoaveis e sensatas, bem como o desejo de ver Alvaro ainda uma vez, de gozar por algumas horas a sua presença, fazião-lhe de novo fluctuar o espirito no mar das irresoluções. A lembrança de que em breve, talvez no dia seguinte, tinha de deixar aquella terra e separar-se de Alvaro, sem esperança alguma de jámais tornar a vel-o, sem poder dizer-lhe um adeos, sem que elle pudesse saber quem ella era, nem para onde ia, dilacerava-lhe o coração. Partir sem ter um ente a quem apertar nos braços na hora da despedida, nem ter um seio onde verter as lagrimas da mais pungente saudade; partir para levar uma vida errante e fugitiva, sem esperança nem consolação alguma, atravéz de mil trabalhos e perigos, para terminal-a talvez entre os tormentos da mais atroz escravidão, oh!... isto era pavoroso!--e, entretanto, era esse o unico futuro, que a pobre Isaura tinha diante dos olhos. Mas não; tinha ainda diante de si uma noite inteira de prazer e de ventura, uma noite esplendida de baile e regozijo de seo amante, respirando o mesmo ar, inebriando-se de sua voz, bebendo o seo halito, recolhendo dentro d’alma seos olhares apaixonados, sentindo na sua a pressão daquella mão adorada, contando as pulsações daquelle coração, que só por ella palpitava. Oh! uma noite assim valia bem uma eternidade, viessem depois embora as angustias e perigos, a escravidão e a morte!
Candida e modesta como era, nem por isso Isaura deixava de ter consciencia do quanto valia. Vendo-se o objeto do amor de um jovem de espirito elevado, e dotado de tão nobres e brilhantes qualidades como Alvaro, ainda mais se confirmou na idéa que de si mesma fazia.
Com sua natural perspicacia e penetração, bem depressa convenceo-se, de que o affecto que o mancebo lhe consagrava, não era simples e superficial homenagem rendida a seos encantos e talentos, nem tão pouco passageiro capricho de mocidade, mas verdadeira paixão, sincera, energica e profunda. Era isto para ella motivo de um orgulho intimo, que a elevava a seos proprios olhos, e por momentos a fazia esquecer-se que era uma escrava.
--Estou convencida de que sou digna do amor de Alvaro, se não, elle não me amaria; e se sou digna de seo amor, por que não o serei de me apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade dos homens pode acaso destruir o que ha de bom e de bello na feitura do creador? Assim reflectia Isaura, e exaltada com estas idéas e com a seductora perspectiva de algumas horas de ineffavel ventura em companhia do amante, exclamava dentro d’alma.--Hei de ir, hei de ir ao baile!--
Emquanto Isaura, silenciosa e com a face na mão, se embebia em suas cismas, procurando firmar-se em uma resolução, o pae não menos inquieto e preoccupado, passeava distrahido entre os canteiros do jardim, aguardando com anciedade uma resposta definitiva de sua filha.
--Irei, meo pae, irei ao baile,--disse ella por fim levantando-se, mas vou preparar-me para elle como a victima que tem de ser conduzida ao sacrificio entre canticos e flores. Tenho um cruel presentimento, que me acabrunha...
--Presentimento de que, Isaura?...
--Não sei, meo pae; de alguma desgraça.
--Pois quanto a mim, Isaura, o coração como que está-me adivinhando, que de ir a esse baile resultará a nossa salvação.
Capitulo XIII.
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