A escrava IsauraPart 16
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Não pense o leitor, que já se acha terminado o baile, a que estavamos assistindo. A pequena digressão, que por fóra delle fizemos no capitulo antecedente, nos pareceo necessaria para explicar por que conjuncto de circumstancias fataes a nossa heroina, sendo uma escrava, foi impellida a tomar a audaciosa resolução de apresentar-se em um esplendido e aristocratico saráo,--fraqueza de coração, ou timidez de caracter, que pode ser desculpada, mas não plenamente justificada em uma pessoa de consciencia tão delicada e de tão esclarecido entendimento.
O baile continúa, mas já não tão animado e festivo como ao principio. Os applausos freneticos, a admiração geral, de que Isaura se havia tornado objecto da parte dos cavalheiros, tinhão produzido um completo resfriamento entre as mais bellas e espirituosas damas da reunião. Arrufadas com seos cavalheiros predilectos, em razão das enthusiasticas homenagens, que francamente ião render aos pés daquella, que implicitamente estavão proclamando a rainha do salão, já nem ao menos querião dançar, e em vez de risos folgazões, e de uma conversação franca e jovial, só se ouvião pelos cantos entre diversos grupos, expansões mysteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre amarellas e sarcasticas risotas.
Propagava-se entre as moças como que um sussurro geral de descontentamento. Era como esses rumores surdos e profundos, que restrugem ao longe pelo espaço, precedendo uma grande tempestade. Dir-se-hia, que já estavão adivinhando que aquella mulher, que por seos encantos e dotes incomparaveis as estava supplantando a todas, não era mais do que--uma escrava. Muitas mesmo se forão retirando, e nomeadamente aquellas que affagavão alguma esperança, ou se julgavão com algum direito sobre o coração de Alvaro. Aniquiladas sob o peso dos esmagadores triumphos de Isaura, não se achando com animo de manterem-se por mais tempo na liça, tomárão o prudente partido de irem esconder no mysterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha de tão cruel e solemne derrota.
Não diremos todavia, que no meio de tantas e tão nobres damas, distinctas pelos encantos do espirito e do corpo, não houvessem muitas, que com toda a isenção e sem a menor sombra de inveja, admirassem a belleza de Isaura, e applaudissem de coração e com sincero prazer os seos triumphos, e forão essas, que conseguirão ir dando alguma vida ao saráo, que sem ellas teria esmorecido inteiramente. Todavia não é menos certo que do bello sexo, sem distincção de classes, ao menos a metade é ludibrio dessas invejas, ciumes e rivalidades mesquinhas.
Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo Alvaro por seo par. Emquanto danção, entremos em uma saleta, onde ha mesas de jogo, e bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e champanhe. Esta saleta communica immediatamente com o salão onde se dança, por uma larga porta aberta. Achão-se ahi uma meia duzia de rapazes, pela maior parte estudantes, desses com pretensões a estroinas e excentricos á Byron, e que já enfastiados da sociedade, dos prazeres e das mulheres, costumão dizer que não trocarião uma fumaça de charuto, ou um copo de champanhe, pelo mais fagueiro sorriso da mais formosa donzella; desses descridos, que vivem a apregoar em prosa e verso que na aurora da vida já tem o coração mirrado pelo sopro do scepticismo, ou calcinado pelo fogo das paixões, ou enregelado pela saciedade; desses misanthropos emfim, cheios de spleen, que se achão sempre no meio de todos os bailes e reuniões de toda especie, alardeando o seo afastamento e desdem pelos prazeres da sociedade e frivolidades da vida.
Entre elles acha-se um, sobre o qual nos é mister deter por mais um pouco a attenção, visto que tem de tomar parte um tanto activa nos acontecimentos desta historia. Este nada tem de spleenitico nem de byroniano; pelo contrario o seo todo respira o mais chato e ignobil prosaismo. Mostra ser mais velho que os seos comparsas, uma boa dezena de anos. Tem cabeça grande, cara larga, e feições grosseiras. A testa é desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuberancias, o que, na opinião de Lavater, é indicio de espirito lerdo e acanhado, a roçar pela estupidez. O todo da physionomia tosca e quase grotesca revéla instinctos ignobeis, muito egoismo e baixeza de caracter. O que porém mais o caracteriza é certo espirito de cobiça, e de sordida ganancia, que lhe transpira em todas as palavras, em todos os actos, e principalmente no fundo de seos olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente um raio de velhacaria. É estudante, mas pelo desalinho do trajo, sem o menor esmero e nem sombra de elegancia, parece mais um vendilhão. Estudava ha quinze anos á sua propria custa, mantendo-se do rendimento de uma taverna, de que era socio capitalista. Chama-se Martinho.
--Rapaziada,--disse um dos mancebos,--vamos nós aqui a uma partida de lansquenet, emquanto esses basbaques ali estão a arrastar os pés e a fazer mesuras.
--Justo!--exclamou outro, sentando-se a uma mesa e tomando baralhos.--Já que não temos cousa melhor a fazer, vamos ás cartas. Demais, no baralho é que está a vida. A vista de uma sóta me faz ás vezes estremecer o coração em emoções mais vivas, do que as sentiria Romeo a um olhar de Julieta... Affonso, Alberto, Martinho, andem para cá; vamos ao lansquenet ... duas ou tres corridas sómente...
--De boa vontade acceitaria o convite,--respondeo Martinho,--se não andasse occupado com um outro jogo, que de um momento para outro, e sem nada arriscar, pode meter-me na algibeira não menos de cinco contos de réis limpinhos.
--De que diabo de jogo estás ahi a fallar?... nunca deixarás de ser maluco?... deixa-te de asneiras, e vamos ao lansquenet.
--Quem tem um jogo seguro como eu tenho, ha-de ir meter-se nos azares do lansquenet, que já me tem engolido bem boas patacas?... Nem tão tolo serei eu.
--Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?... que maldito jogo é esse?...
--Ora adivinhem lá... Não são capazes. É uma bisca de estrondo. Se adivinharem, dou-lhes uma ceia esplendida no melhor hotel desta cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.
--Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalháo ardido, e por que não é possivel haver quem adivinhe as asneiras que passam lá por esses teos miolos extravagantes. O que queremos é o teo dinheiro aqui sobre a mesa do lansquenet.
--Ora deixem-me em paz,--disse Martinho, com os olhos attentamente dirigidos para o salão de dança.--Estou calculando o meo jogo ... supponhão que é o xadrez, e que eu vou dar cheque-mate á rainha ... dito e feito, e os cinco contos são meos...
--Não ha duvida, o rapaz está doudo varrido... Anda lá, Martinho; descobre o teo jogo, ou vae-te embora, e não nos estejas a massar a paciencia com tuas maluquices.
--Malucos são vocês. O meo jogo é este ... mas quanto me dão para descobril-o? olhem que é cousa curiosa.
--Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres, não é assim?... pois desta vez affianço-te da minha parte, que não arranjas nada. Vae-te aos diabos com o teo jogo, e deixa-nos cá com o nosso. Ás cartas, meos amigos, e deixemos o Martinho com suas maluquices.
--Com suas velhacarias, dirás tu ... não me pilha.
--Ah! toleirões!--exclamou o Martinho,--vocês ainda estão com os beiços com que mamárão.
Andem cá, andem, e verão se é maluquice, nem velhacaria. Emfim quero mostrar-lhes o meo jogo, porque desejo ver se a opinião de vocês estará ou não de accordo com a minha.
Eis aqui a minha bisca.--concluio Martinho mostrando um papel, que sacou da algibeira;--não é nada mais que um annuncio de escravo fugido.
--Ah! ah! ah! esta não é má!...
--Que disparate!... decididamente estás louco, meo Martinho.
--A que proposito vem agora annuncio de escravo fugido?...
--Foste acaso nomeado official de justiça ou capitão do mato?
Estas e outras phrases escapavão aos mancebos de envolta, em um choro de interminaveis gargalhadas, que competião com a orchestra do baile.
--Não sei de que tanto se espantão,--replicou frescamente o Martinho;--o que admira é que ainda não vissem este grande annuncio em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuido por toda a cidade com o Jornal do Commercio.
--Por ventura somos esbirros ou officiaes de justiça, para nos embaraçarmos com semelhantes annuncios?
--Mas olhem que o negocio é dos mais curiosos, e as alviçaras não são para se desprezarem.
--Pobre Martinho! quanto pode em teo espirito a ganancia de ouro, que faz-te andar á cata de escravos fugidos em uma sala de baile!--pois é aqui, que poderás encontrar semelhante gente?...
--Olé!... quem sabe?!... tenho cá meos motivos para desconfiar que por aqui mesmo hei-de achal-a, assim como os cinco continhos, que, aqui entre nós, vem agora mesmo ao pintar, pois que o armazem de meo socio bem pouco tem rendido nestes ultimos tempos.
Martinho chamava armazem a pequena taverna, de que era socio. Ditas aquellas palavras foi postar-se junto á porta, que dava para o salão, e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dansavão, ora para o annuncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta os signaes.
--Que diabo faz ali o Martinho?--exclamou um dos mancebos, que entretidos com as mimicas do Martinho, tomando-as por palhaçada, tinha-se esquecido de jogar.
--Está doudo, não resta a menor duvida.--observou outro.--Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais nada! Se andasse á cata de alguma princeza, de certo a iria procurar nos quilombos.
--Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ahi anda.
--Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dansando, e elle não tira os olhos dos que dansão.
--Deixál-o; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi um maniaco de primeira força.
--É ella!--disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para seos companheiros;--é ella; já não tenho a menor duvida; é ella, e está segura.
--Ella quem, Martinho?...
--Ora! pois quem mais ha-de ser?...
--A escrava fugida?!...
--A escrava fugida, sim, senhores!... e ella está ali dansando.
--Ah! ah! ah! ora vamos ver mais esta, Martinho!... até onde queres levar a tua farça? deve ser galante o desfecho. Isto é impagavel, e vale mais que quantos bailes ha no mundo.
--Se todos elles tivessem um episodio assim, eu não perdia nem um.--Assim clamavão os moços entre estrondosas gargalhadas.
--Vocês zombão?--olhem que a farça cheira um pouco a tragedia.
--Melhor! Melhor!--vamos com isso, Martinho!
--Não acreditão?... pois escutem lá, e depois me dirão que tal é a farça.
Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o annuncio, pôz-se em attitude de lêl-o. Os outros se agrupárão curiosos em torno delle.
--Escutem bem,--continuou Martinho--Cinco contos!--eis o titulo pomposo, que em eloquentes e graúdos algarismos se acha no frontispicio desta obra immortal, que vale mais que a Iliada de Camões...
--E que os Luziadas de Homero, não é assim, Martinho? deixa-te de preambulos asnaticos, e vamos ao annuncio.
--Eu já lhes satisfaço,--disse Martinho, e continuou lendo:
--Fugio da fazenda do S^{r}. Leoncio Gomes da Fonseca, no municipio de Campos, provincia do Rio de Janeiro, uma escrava por nome Isaura, cujos signaes são os seguintes:
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