A escrava IsauraPart 18

Part 18

--Oh! temos mysterio!... pois nesse caso declaro-lhe, que não abandonarei esta senhora um só instante, e se o senhor não quer dizer ao que veio, póde retirar-se.

--Nessa não caio eu, que não hei-de perder o meo tempo, e o meo trabalho, e nem os meos cinco contos.--Estas ultimas palavras resmungou-as elle entre os dentes.

--Senhor Martinho, por favor queira não abusar mais da minha paciencia. Se não quer dizer ao que veio, ponha-se já longe da minha presença....

--Oh! senhor!--retorquio Martinho, sem se perturbar;--já que a isso me força, pouco me custa fazer-lhe a vontade, e com bastante pezar tenho de declarar-lhe, que essa senhora a quem dá o braço, é uma escrava fugida!...

Alvaro, se bem que conhecesse a vilania e impudencia do caracter de Martinho, no primeiro momento ficou pasmo ao ouvir aquella subita e imprevista delação. Não podia dar-lhe credito, e reflectindo um instante confirmou-se mais na idéa, de que tudo aquillo não passava de uma farça posta em jogo por algum indigno rival, com o fim de desgostal-o ou insultal-o. A pessoa do Martinho, que não poucas vezes, na qualidade de truão ou palhaço, servia de instrumento ás vinganças e paixões mesquinhas de entes tão ignobeis como elle, servia para justificar a desconfiança de Alvaro, que acabou por não sentir senão asco e indignação por tão infame procedimento.

--Senhor Martinho,--bradou elle com voz severa,--se alguem pagou-lhe para vir achincalhar-me a mim e a esta senhora, diga quanto ganha, que estou prompto a dar-lhe o dobro para nos deixar em paz.

A esta sanguinolenta affronta, a larga e impudente cara do Martinho nem de leve se alterou, e por unica resposta:

--Torno a repetir,--bradou com todo o descaramento,--e em voz bem alta, para que todos oição: esta senhora que aqui se acha, é uma escrava fugida, e eu estou encarregado de apprehendel-a e entregal-a a seo senhor.

Entretanto Isaura avistando seo pae, que tambem a procurava por toda a parte com os olhos, largando o braço de Alvaro correo a elle, lançou-se-le nos braços, e escondendo o rosto em seo hombro:

--Que opprobrio, meo pae!--exclamou com voz sumida e a soluçar.--Eu bem estava presentindo!...

--Este homem, se não é um insolente, ou está louco ou bebado,--bradava Alvaro palido de cólera.--Em todo o caso deve ser enchotado como indigno desta sociedade.

Já alguns amigos de Alvaro agarrando o Martinho pelo braço, se dispunhão a pôl-o pela porta a fora, como a um ebrio ou alienado.

--De vagar meos amigos, de vagar!.. disse-lhes elle com toda a calma.--Não me condenem sem primeiro ouvirem-me. Escutem primeiro este annuncio que lhes vou ler, e se não fôr verdade o que eu digo, dou-lhes licença para me cuspirem na cara, e me atirarem da janella abaixo.

Entretanto esta pequena altercação começava a attrair a attenção geral, e numerosos grupos movidos de curiosidade se apinhavão em torno dos contendores. A frase fatal--esta senhora é uma escrava!--proferida em voz alta por Martinho, transmittida de grupo em grupo, de ouvido em ouvido, já havia circulado com incrivel celeridade por todas as salas e recantos do espaçoso edificio. Um sussurro geral se propagára por todo elle, e damas e cavalheiros, e tudo o que ali se achava, inclusive musicos, porteiros e famulos, atropellando-se uns aos outros, arrojavão-se afanosos para a sala, onde se dava o singular incidente que estamos relatando. A sala estava litteralmente apinhada de gente, que nem se podia mexer, e que offegante de anciosa curiosidade erguia a cabeça, afiava o ouvido e alongava o pescoço o mais que podia para ver e ouvir o que se passava.

Foi no meio desta multidão silenciosa, immovel, estupefacta e anhelante, que Martinho sacando tranquillamente da algibeira o annuncio, que nós já conhecemos, desdobrou-o ante seos olhos, e em voz bem alta e sonora o leo de principio a fim.

--Bem se vê,--continuou elle concluida a leitura,--que os signaes combinão perfeitamente, e só um cego não verá naquella senhora a escrava do annuncio. Mas para tirar toda a duvida, só resta examinar, se ella tem o tal signal de queimadura acima do seio, e é cousa que desde já se póde averiguar com licença da senhora.

Dizendo isto, Martinho com impudente desembaraço se encaminhava para Isaura.

--Alto lá, vil esbirro!... bradou Alvaro com força, e agarrando o Martinho pelo braço, o arrojou para longe de Isaura, e o teria lançado em terra, se elle não fosse esbarrar de encontro ao grupo, que cada vez mais se apertava em torno delles.--Alto lá! nem tanto desembaraço! escrava, ou não, tu não lhe deitarás as mãos immundas.

Aniquilada de dor e de vergonha, Isaura erguendo emfim o rosto, que até ali tivera sempre debruçado e escondido sobre o seio de seo pae, voltou-se para os circumstantes, e ajuntando as mãos convulsas no gesto da mais violenta agitação:

--Não é preciso que me toquem,--exclamou com voz angustiada.--Meos senhores, e senhoras, perdão! commetti uma infamia, uma indignidade imperdoavel!... mas Deos me é testemunha, que uma cruel fatalidade a isso me levou. Senhores, o que esse homem diz, é verdade. Eu sou ... uma escrava!...

O rosto da captiva cobrio-se de lividêz cadaverica, como lyrio ceifado pendeo-lhe a fronte sobre o seio, e o donoso corpo desabou como bella estatua de marmore, que o furacão arranca do pedestal, e teria rojado pela terra, se os braços de Alvaro e de Miguel não tivessem promptamente acudido para amparar-lhe a queda.

Uma escrava!... estas palavras, soluçadas no peito de Isaura como o estertor do arranco extremo, murmuradas de boca em boca pela multidão estupefacta, echoárão largo tempo pelos vastos salões, como o rugir sinistro das lufadas da noite pela grenha de funebre arvoredo.

Este estranho incidente produzio no saráo o mesmo effeito, que faria em um acampamento a explosão de um paiol de polvora; nos primeiros momentos susto, pasmo, e uma especie de estertor de angustia; depois agitação, alarma, movimento e alarido.

Alvaro e Miguel conduzirão Isaura desfallecida ao boudoir das damas, e ahi ajudados por algumas senhoras compassivas, prestárão-lhe os socorros que o caso reclamava, e não a abandonárão em quanto não recobrou completamente os sentidos. Martinho, inquieto e resabiado, os seguia e espiava o mais de perto que lhe era possivel, com receio de que lhe roubassem a presa.

É impossivel descrever a celeuma, que se levantou, a agitação, que sublevou todos os espiritos, e as diversas e oppostas impressões, que produzio nos animos aquella inesperada revelação. Com que cara ficarião tantas bellezas de primeira ordem, tantas damas das mais distinctas jerarquias sociaes, ao saberem que aquella que as havia supplantado a todas, em formosura, donaire, talentos e graças do espirito, não era mais que uma escrava! eu mesmo não sei dizer; os leitores que fação idéa. Entretanto em muitas dellas o cruel desapontamento por que acabavão de passar, não deixava de ser mesclado de um certo contentamento intimo, mórmente naquellas que se sentião enfadadas pelas defferencias e homenagens que certos cavalheiros, tomados de enthusiasmo, havião francamente rendido á gentil desconhecida. Estavão humilhadas, mas tambem vingadas. Quanto ás que tinham esperanças ou pretensões ao amor de Alvaro,--e não erão poucas,--essas exultárão de jubilo ao saberem do caso, e o nobre mancebo tornou-se o alvo de mil desapiedados apodos e pilhérias.

--O que me diz do escravo da escrava?--dizião ellas--com que cara não ficaria o pobre homem!...

--Com a mesma. De certo vae forral-a e casar-se com ella. Aquillo é um maluco capaz de todas as asneiras.

--E que máo! Terá ao mesmo tempo mulher e talvez uma boa cosinheira.

Triste consolação! o estigma do captiveiro não podia apagar da bella fronte de Isaura, antes mais realçava o cunho de superioridade que o sopro divino nella havia gravado em caracteres indeleveis.

Entre os mancebos a impressão era bem differente. Poucos, bem poucos, deixávão de tomar vivo interesse e compaixão pela sorte da infeliz e formosa escrava. Por todos os cantos fallava-se e discutia-se com calor a respeito do caso. Alguns, a despeito da evidencia dos indicios e da confissão de Isaura, ainda duvidavão da verdade que tinham diante dos olhos.

--Não; aquella mulher não pode ser uma escrava,--dizião elles,--aqui ha algum mysterio, que algum dia se desvendará.

--Qual mysterio? o caso é muito factivel, e ella mesma o confessou. Mas quem será esse bruto e desalmado fazendeiro, que conserva no captiveiro uma tão linda creatura?

--Deve ser algum lorpa de alma bem estupida e sordida.

--Se não fôr algum sultãosinho de bom gosto, que a quer para o seo serralho.

--Seja como fôr, esse bruto deve ser constrangido a dar-lhe a liberdade. Na senzala uma mulher que merecia sentar-se n’um throno!...

--Tambem só o infame do Martinho, com o seo satanico instincto de cobiça, poderia farejar uma escrava na pessoa daquelle anjo! que impudencia! se o visse agora aqui, era capaz de estrangulal-o!

Entretanto Martinho, que se havia previamente munido de um mandado de apprehensão, e se fazia acompanhar de um official de justiça, exigia terminantemente, que se lhe fizesse entrega de Isaura. Alvaro porém interpondo o valimento e prestigio de que gozava, oppôz-se decididamente a essa exigencia, e tomando por testemunhas as pessoas que ali se achavão, constituio-se fiador da escrava, compromettendo-se a entregal-a a seo senhor, ou a quem por ordem delle a reclamasse. Em vão Martinho quiz insistir; uma multidão de vozes, que o apupavão e cobrião de injurias, forçárão-no a calar-se e desistir de sua pretensão.

--Ah! malditos! querem-me roubar!--bradava Martinho como um possesso.--Meos cinco contos! ai! meos cinco contos! lá se vão pela agoa abaixo.

E dizendo isto procurou a escada, e saltando-a aos dois e tres degráos, lá se foi bramindo pela porta a fóra.

Capitulo XV.

Já é passado cerca de um mez depois dos acontecimentos, que acabamos de narrar. Isaura e Miguel, graças á valiosa intervenção de Alvaro, continuão a habitar a mesma pequena chacara no bairro de Santo Antonio. Já não lhes sendo mais possivel pensar em fugir para mais longe nem occultarem-se, ali se conservão por conselho de seo protector, esperando o resultado dos passos que este se compromettera a dar em favor d’elles, porém sempre na mais angustiosa inquietação, como Damocles tendo sobre a cabeça, aguda espada suspensa por um fio.

Alvaro vae quasi todos os dias a casa dos dous foragidos, e ahi passa longas horas entretendo-os sobre os meios de conseguir a liberdade de sua protegida, e procurando confortal-os na esperança de melhor destino.

Para nos inteirarmos do que tem occorrido desde a fatal noite do baile, ouçamos a conversação que teve lugar em casa de Isaura entre Alvaro e o seo amigo D^{r}. Geraldo.

Este na mesma manhã que seguio-se á noite do baile, deixára o Recife e partira para uma villa do interior, onde tinha sido chamado a fim de encarregar-se de uma causa importante. De volta á capital no fim de um mez, um de seos primeiros cuidados foi procurar Alvaro, não só pelo impulso da amisade, como tambem estimulado pela curiosidade de saber do desenlace que tivera a singular aventura do baile. Não o tendo achado em casa por duas ou tres vezes que ahi o procurou, presumio que o meio mais provavel de encontral-o seria procural-o em casa de Isaura, caso ella ainda se achasse no Recife residindo na mesma chacara; não se illudio.

Alvaro, tendo reconhecido a voz de seo amigo, que da porta do jardim perguntava por elle, sahio ao seo encontro; mas antes disso, tendo assegurado aos donos da casa que a pessoa que o procurava, era um amigo intimo, em quem depositava toda confiança, pedio-lhes licença para o fazer entrar.

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