A escrava IsauraPart 19
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Geraldo foi introduzido em uma pequena sala da frente. Posto que pouco espaçosa e mobiliada com a maior simplicidade, era esta salinha tão fresca, sombria e perfumada, tão cheia de flores desde a porta da entrada, a qual bem como as janellas estava toda entrelaçada de ramos e festões de flores, que mais parecia um caramanchão ou gruta de verdura, do que mesmo uma sala. Quasi toda a luz lhe vinha pelos fundos atravéz de uma larga porta dando para uma varanda aberta, que olhava para o mar. Dali a vista enfiando-se por entre troncos de coqueiros, que derramavão sombra e fresquidão em torno da casa, deslizava pela superficie do oceano, e ia embeber-se na profundidade de um céo limpido e cheio de fulgores.
Miguel e Isaura depois de terem cumprimentado o visitante e trocado com elle algumas palavras de mera civilidade, presumindo que quererião estar sós, retirárão-se discretamente para o interior da casa.
--Na verdade, Alvaro,--disse o doutor sorrindo-se,--é uma deliciosa morada esta, e não admira que gostes de passar aqui grande parte do teo tempo. Parece mesmo a gruta mysteriosa de uma fada. É pena, que um maldito nigromante quebrasse de repente o encanto de tua fada, transformando-a em uma simples escrava!
--Ah! não gracejes, meo doutor; aquella scena extraordinaria produzio em meo espirito a mais estranha e dolorosa impressão; porém, francamente te confesso, não mudou senão por instantes a natureza de meos sentimentos para com essa mulher.
--Que me dizes?... a tal ponto chegará a tua excentricidade?!...
--Que queres? a natureza assim me fez. Nos primeiros momentos a vergonha e mesmo uma especie de raiva me cegárão; vi quasi com prazer o transe cruel, porque ella passou. Que triste e pungente decepção! Vi em um momento desmoronar-se e desfazer-se em lama o brilhante castello, que minha imaginação com tanto amor tinha erigido!... uma escrava illudir-me por tanto tempo, e por fim ludibriar-me, expondo-me em face da sociedade á mais humilhante irrisão! faze idéa de quanto eu ficaria confuso e corrido diante daquellas illustres damas, com as quaes tinha feito ombrear uma escrava em pleno baile, perante a mais distincta e brilhante sociedade!...
--E o que mais é,--accrescentou Geraldo,--uma escrava, que as offuscava a todas por sua rara formosura e brilhantes talentos. Nem de proposito poderias preparar-lhes mais tremenda humilhação. É um crime, que nunca te perdoarão, posto que saibão que tambem andavas illudido.
--Pois bem, Geraldo; eu, que naquella occasião, desairado e confuso, não sabia onde esconder a cara, hoje rio e me applaudo por ter dado occasião a semelhante aventura. Parece que Deos de proposito tinha preparado aquella interessante scena, para mostrar de um modo palpitante quanto é van e ridicula toda a distincção, que provém do nascimento e da riqueza, e para humilhar até o pó da terra o orgulho e fatuidade dos grandes, e exaltar e ennobrecer os humildes de nascimento, mostrando que uma escrava pode valer mais que uma duqueza.
Pouco durou aquella primeira e desagradavel impressão. Bem depressa a compaixão, a curiosidade, o interesse, que inspira o infortunio em uma pessoa daquella ordem, e talvez tambem o amor, que nem com aquelle estrondoso escandalo pudéra extinguir-se em meo coração, fizerão-me esquecer tudo, e resolvi-me a proteger francamente e a todo o transe a formosa captiva. Apenas consegui que Isaura recobrasse os sentidos, e a vi fora de perigo, corri á casa do chefe de policia, e expondo-lhe o caso, graças ás relações de amisade, que com elle tenho, obtive permissão, para que Isaura e seo pae,--fica sabendo que é realmente seo pae,--podessem recolher-se livremente á sua casa, ficando eu por garante de que não desapparecerião; e assim se effectuou, a despeito dos bramidos do Martinho, que teimava em não querer largar a presa. Todavia no dia seguinte pela manhã, o mesmo chefe, pesando a gravidade e importancia do negocio, quiz que ella fosse conduzida á sua presença para interrogal-a e verificar a identidade de pessoa. Encarreguei-me de conduzil-a. Oh! se a visses então!... atravéz das lagrimas, que lhe arrancava sua cruel situação, transparecia em todo o seo brilho, a dignidade humana. Nada havia nella, que denunciasse a abjecção do escravo, ou que não revelasse a candura e nobreza de sua alma. Era o anjo da dor exilado do céo e arrastado perante os tribunaes humanos. Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de policia possuido de respeito e admiração diante de tão gentil e nobre figura, tratou-a com toda a amabilidade, e interrogou-a com brandura e polidez. Coberta de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma alma pura. Fugira em companhia de seo pae, para escapar ao amor de um senhor devasso, libidinoso e cruel, que a poder de violencias e tormentos tentava forçal-a a satisfazer seos brutaes desejos. Mas Isaura, a quem uma natureza privilegiada secundada pela mais fina e esmerada educação, inspirára desde a infancia o sentimento da dignidade e do pudor, repellio com energia heroica todas as seducções e ameaças de seo indigno senhor. Emfim ameaçada dos mais aviltantes e barbaros tratamentos, que já começavão a traduzir-se em vias de facto, tomou o partido extremo de fugir, o unico que lhe restava.
--O motivo da fuga, Alvaro, a ser verdadeiro é o mais honroso possivel para ella, e a torna uma heroina; mas ... emfim de contas ella não deixa de ser uma escrava fugida.
--E por isso mesmo mais digna de interesse e compaixão. Isaura tem-me contado toda a sua vida, e segundo creio, pode allegar, e talvez provar direito á liberdade. Sua senhora velha, mãe do actual senhor, a qual creou-a com todo o mimo, e a quem ella deve a excellente educação que tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por sua morte a deixaria livre; a morte subita e inesperada desta senhora, que falleceo sem testamento, é a causa de Isaura achar-se ainda entre as garras do mais devasso e infame dos senhores.
--E agora o que pretendes fazer?...
--Pretendo requerer, que Isaura seja mantida em liberdade, e que lhe seja nomeado um curador a fim de tratar do seo direito.
--E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as allegações que fazes?
--Não sei, Geraldo; desejava consultar-te, e esperava-te com impaciencia precisamente para esse fim. Quero que com a tua sciencia juridica me esclareças e inspires neste negocio. Já lancei mão do primeiro e mais obvio expediente que se me offerecia, e logo no dia seguinte ao do baile escrevi ao senhor de Isaura com as palavras as mais comedidas e suasivas, de que pude usar, convidando-o a abrir preço para a liberdade della. Foi peor; o libidinoso e ciumento Rajáh enfureceo-se e mandou-me em resposta esta carta insolente, que acabo de receber, em que me trata de seductor e acoutador de escravas alheias, e protesta lançar mão dos meios legaes para que lhe seja entregue a escrava.
--É bem parvo e descortêz o tal sultanete,--disse Geraldo depois de ter percorrido rapidamente a carta, que Alvaro lhe apresentou;--mas o certo é que, pondo de parte a insolencia...
--Pela qual ha-de me dar completa e solemne satisfação, eu o protesto.
--Pondo de parte a insolencia, se nada tens de valioso a apresentar em favor da liberdade da tua protegida, elle tem o incontestavel direito de reclamar e apprehender a sua escrava onde quer que se ache.
--Infame e cruel direito é esse, meo caro Geraldo. É já um escarneo dar-se o nome de direito a uma instituição barbara, contra a qual protestão altamente a civilisação, a moral e a religião. Porém tolerar a sociedade que um senhor tyrano e brutal, levado por motivos infames e vergonhosos, tenha o direito de torturar uma fragil e innocente creatura, só por que teve a desdita de nascer escrava, é o requinte da sceleratez e da abominação.
--Não é tanto assim, meo caro Alvaro; esses excessos e abusos devem ser cohibidos; mas como poderá a justiça ou o poder publico devassar o interior do lar domestico, e ingerir-se no governo da casa do cidadão? que abominaveis e hediondos mysterios, a que a escravidão dá lugar, não se passão por esses engenhos e fazendas, sem que, já não digo a justiça, mas nem mesmo os visinhos, delles tenhão conhecimento?... Em quanto houver escravidão, hão-de se dar esses exemplos. Uma instituição má produz uma infinidade de abusos, que só poderão ser extinctos cortando-se o mal pela raiz.
--É desgraçadamente assim; mas se a sociedade abandona deshumanamente essas victimas ao furor de seos algozes, ainda ha no mundo almas generosas, que se incumbem de protegel-as ou vingal-as. Quanto a mim protesto, Geraldo, emquanto no meo peito pulsar um coração, hei-de disputar Isaura á escravidão com todas as minhas forças, e espero que Deos me favorecerá em tão justa e santa causa.
--Pelo que vejo, meo Alvaro, não procedes assim só por espirito de philantropia, e ainda amas muito a essa escrava.
--Tu o disseste, Geraldo; amo-a muito, e hei-de amal-a sempre; nem disso faço mysterio algum. E será cousa estranha ou vergonhosa amar-se uma escrava? O patriarcha Abraham amou sua escrava Agar, e por ella abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condição não póde despojar Isaura da candida e brilhante aureola, de que a via e até hoje a vejo circumdada. A belleza e a innocencia são astros que mais refulgem quando engolphados na profunda escuridão do infortunio.
--É bella a tua philosophia, e digna de teo nobre coração; mas que queres? as leis civis, as convenções sociaes, são obras do homem, imperfeitas, injustas, e muitas vezes crueis. O anjo padece e geme sob o jugo da escravidão, e o demonio exalça-se ao fastigio da fortuna e do poder.
--E assim pois,--reflectio Alvaro com desanimo,--nessas desastradas leis nenhum meio encontras de disputar ao algôz essa innocente victima?
--Nenhum, Alvaro, em quanto nenhuma prova puderes adduzir em pro do direito de tua protegida. A lei no escravo só vê a propriedade, e quasi que prescinde nelle inteiramente da natureza humana. O senhor tem direito absoluto de propriedade sobre o escravo, e só pode perdel-o manumittindo-o ou albreando-o por qualquer maneira, ou por litigio provando-se a liberdade, mas não por sevicias que commetta ou outro qualquer motivo analogo.
--Miseravel e estupida papelada que são essas vossas leis. Para illaquear a boa fé, proteger a fraude, illudir a ignorancia, defraudar o pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, são ellas fecundas em recursos e estratagemas de toda a especie. Mas quando se tem em vista um fim humanitario, quando se trata de proteger a innocencia desvalida contra a prepotencia, de amparar o infortunio contra uma injusta perseguição, então ou são mudas, ou são crueis.
Mas não obstante ellas hei-de empregar todos os esforços ao meo alcance para libertar a infeliz do affrontoso jugo que a opprime. Para tal empreza alenta-me não já sómente um impulso de generosidade, como tambem o mais puro e ardente amor, sem pejo o confesso.
O amigo de Alvaro arripiou-se com esta deliberação tão franca e enthusiasticamente proclamada com essa linguagem tão exaltada, que lhe pareceo um deploravel desvario da imaginação.
--Nunca pensei,--replicou com gravidade,--que a tal ponto chegasse a exaltação desse teo excentrico e malfadado amor. Que por um impulso de humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e mais natural. O mais não passa de delirio de uma imaginação exaltada e romanesca. Será airoso e digno da posição que occupas na sociedade, deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?...
--Escrava!--exclamou Alvaro cada vez mais exaltado,--isso não passa de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade inteira contrariar as vistas do creador, e transformar em uma vil escrava o anjo que sobre a terra cahio das mãos de Deos?...
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