A escrava IsauraPart 20
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--Mas por uma triste fatalidade o anjo cahio do céo no lodaçal da escravidão, e ninguem aos olhos do mundo o poderá purificar dessa nodoa, que lhe mancha as azas. Alvaro, a vida social está toda juncada de forcas caudinas, por debaixo das quaes nos é forçoso curvar-nos, sob pena de abalroarmos a fronte em algum obstaculo, que nos faça cahir. Quem não respeita as conveniencias e até os preconceitos sociaes, arrisca-se a cahir no descredito ou no ridiculo.
--A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma ulcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo, resultante de um abuso, que nos deshonra aos olhos do mundo civilisado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será imitado. Sirva elle ao menos de um protesto energico e solemne contra uma barbara e vergonhosa instituição.
--És rico, Alvaro, e a riqueza te dá bastante independencia, para poderes satisfazer os teos sonhos philantropicos e os caprichos de tua imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja, nunca poderia reformar os prejuizos do mundo, nem fazer com que essa escrava, a quem segundo todas as apparencias quererias ligar o teo destino, fosse considerada, e nem mesmo admittida nos circulos da alta sociedade...
--E que me importão os circulos da alta sociedade, uma vez que sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração bem formado? Demais enganas-te completamente, meo Geraldo. O mundo corteja sempre o dinheiro, onde quer que elle se ache. O ouro tem um brilho, que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas nodoas de nascimento. Não nos faltarão nunca, eu te affianço, o respeito, nem a consideração social, em quanto nos não faltar o dinheiro.
--Mas, Alvaro, esqueces-te de uma cousa muito essencial; e se te não fôr possivel obter a liberdade de tua protegida?...
A esta pergunta Alvaro empalideceo, e opprimido pela idéa de tão cruel como possivel alternativa, sem responder palavra olhava tristemente para o horizonte, quando o boleeiro de Alvaro, que se achava postado com sua caleça junto á porta do jardim, veio anunciar-lhe que algumas pessoas o procuravão e desejavão fallar-lhe, ou ao dono da casa.
--A mim!--resmungou Alvaro; por ventura estou eu em minha casa?... mas como tambem procurão o dono desta ... faça-os entrar.
--Alvaro, disse Geraldo espreitando por uma janella,--se me não engano, é gente da policia; parece-me que lá vejo um official de justiça. Teremos outra scena igual á do baile?...
--Impossivel!... com que direito virião tocar-me no deposito sagrado, que a mesma policia me confiou?...
--Não te fies nisso. A justiça é uma deosa muito voluvel e fertil em patranhas. Hoje desmanchará o que fez hontem...
Capitulo XVI.
O primeiro cuidado de Martinho logo ao sahir do baile, em que vio mallograda a sua tentativa de apprehender Isaura, foi escrever ao senhor della uma longa e minuciosa carta, communicando-lhe que tinha tido a fortuna de descobrir a escrava, que tanto procurava.
Contava por miudo as diligencias que fizera para esse fim, até descobril-a em um baile publico, e encarecia o seo proprio merito e perspicacia para esbirro, dizendo que a não ser elle, ninguem seria capaz de farejar uma escrava na pessoa de uma moça tão bonita e tão prendada. Alterando os factos e as circumstancias do modo o mais atroz e calumnioso, dizia-lhe em phrases de taverneiro, que Miguel se estabelecera no Recife com Isaura a fim de especular com a formosura da filha, a qual, a poder de armar laços á rapaziada vadia e opulenta, tinha por fim conseguido apanhar um patinho bem gordo e facil de depennar. Era este um pernambucano por nome Alvaro, moço duas vezes millionario, e mil vezes desmiolado, que tinha por ella uma paixão louca. Este moço, a quem ella trazia illudido e engodado ao ponto de elle querer desposal-a, cahio na tolice de leval-a a um baile, onde elle Martinho teve a fortuna de descobril-a, e a teria apprehendido, e estaria ella já de marcha para o poder de seo senhor, se não fosse a opposição do tal senhor Alvaro, que apezar de ficar sabendo de que ralé era a sua heroina, teve a pouca vergonha de protegel-a escandalosamente. Prevalecendo-se das valiosas relações, e da influencia de que gozava no paiz em razão de sua riqueza, conseguio impedir a sua apprehensão, e tornando-se fiador della a conservava em seo poder contra toda a razão e justiça, protestando não entregal-a senão ao seo proprio senhor. Julga que a intenção de Alvaro é tentar meios de libertal-a, a fim de fazel-a sua mulher ou sua amasia. Julgava de seo dever communicar-lhe tudo isso para seo governo.
Era este em summa o conteúdo da carta de Martinho, a qual seguio para o Rio de Janeiro no mesmo paquete que levava a carta de Alvaro, fazendo proposições para a liberdade de Isaura. Leoncio contente com a descoberta, mas cheio de ciume e inquietação em vista das informações de Martinho, apressou-se em responder a ambos, e o mesmo paquete que trouxe a resposta insolente e insultuosa que dirigio a Alvaro, foi portador da que se destinava a Martinho, na qual o autorisava a apprehender a escrava em qualquer parte que a encontrasse, e para maior segurança remettia-lhe tambem procuração especial para esse fim, e mais algumas cartas de recommendação de pessoas importantes para o chefe de policia, para que o auxiliasse naquella diligencia.
Martinho mais que depressa dirigio-se á casa da policia, e apresentando ao chefe todos esses papeis, requereo-lhe que mandasse entregar-lhe a escrava. O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava munido, entendeo que não lhe era possivel denegar-lhe o que pedia, e expedio ordem por escripto, para que lhe fosse entregue a escrava em questão, e deo-lhe um official de justiça e dous guardas para effectuarem a diligencia.
Foi portanto o Martinho, que munido de todos os poderes e competentemente autorisado pela policia apresentou-se com sua escolta á porta da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cubiçada presa.
--Ainda este infame!--murmurou Alvaro entre os dentes ao ver entrar o Martinho.--Era um rugido de cólera impotente, que o angustiado mancebo arrancára do intimo da alma.
--Que deseja de mim o senhor?--perguntou Alvaro em tom secco e altivo.
--Vª. Sª., que bem me conhece,--respondeo Martinho,--já pode presumir pouco mais ou menos o motivo, que aqui me traz.
--Nem por sombras posso adivinhal-o, antes me causa estranheza esse apparato policial, de que vem acompanhado.
--Sua estranheza cessará, sabendo que venho reclamar uma escrava fugida, por nome Isaura, que não ha muito tempo foi por mim apprehendida no meio de um baile, no qual se achava Vª. Sª., e devendo eu envial-a a seo senhor no Rio de Janeiro, Vª. Sª. a isso se oppôz sem motivo algum justificavel, conservando-a até hoje em seo poder contra todo o direito.
--Alto lá, senhor Martinho! penso que não é pessoa competente para dar ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe, que eu sou depositario dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento da autoridade a tenho debaixo de minha protecção.
--Esse direito, se é que se pode chamar direito a uma arbitrariedade, cessou, desde que Vª. Sª. nada tem allegado em favor da mesma escrava. E demais,--continuou apresentando um papel,--aqui está ordem expressa e terminante do chefe de policia, mandando que me seja entregue a dita escrava. A isto nada se póde oppôr legalmente.
--Pelo que vejo, senhor Martinho,--disse Alvaro depois de examinar rapidamente o papel que Martinho lhe entregára,--ainda não desistio de seo indigno procedimento, tornando-se por um pouco de dinheiro o vil instrumento do algôz de uma infeliz mulher? Reflicta, e verá que essa infame acção só pode inspirar asco e horror a todo o mundo.
Martinho achando-se acostado pela policia, julgou-se com direito de mostrar-se aspero e arrogante, e portanto com imperturbavel sangue frio:
--Senhor Alvaro,--respondeo,--eu vim a esta casa sómente com o fim de exigir em nome da autoridade a entrega de uma escrava fugida, que aqui se acha acoutada, e não para ouvir reprehensões, que o senhor não tem direito de dar-me. Trate de fazer o que a lei ordena e a prudencia aconselha, se não quer que use de meo direito...
--Qual direito?!...
--De varejar esta casa e levar á força a escrava.
--Retira-te, miseravel esbirro!--bradou Alvaro com força, não podendo mais sopear a cólera.--Desapparece de minha presença, se não queres pagar caro o teo atrevimento!...
--Senhor Alvaro!... veja o que faz!
O D^{r}. Geraldo não achando muita razão em seo amigo, por prudencia até ali se tinha conservado silencioso, mas vendo que a cólera e imprudencia de Alvaro ia excedendo os limites, julgou de seo dever intervir na questão, e approximando-se de Alvaro, e punchado-lhe o braço:
--Que fazes, Alvaro?--disse-lhe em voz baixa,--Não vês que com esses arrebatamentos não consegues senão comprometter-te, e aggravar a sorte de Isaura? mais prudencia, meo amigo.
--Mas... que devo eu fazer?... não me dirás?
--Entregal-a.
--Isso nunca!...--replicou Alvaro terminantemente.
Conservárão-se todos silenciosos por alguns momentos. Alvaro parecia reflectir.
--Occorre-me um expediente,--disse elle ao ouvido de Geraldo,--vou tental-o.
E sem esperar resposta approximou-se de Martinho.
--Senhor Martinho,--disse-lhe elle,--desejo dizer-lhe duas palavras em particular, com permissão aqui do doutor.
--Estou ás suas ordens,--replicou Martinho.
--Estou persuadido, senhor Martinho,--disse-lhe Alvaro em voz baixa, tomando-o de parte,--que a gratificação de cinco contos é o motivo principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz mulher, que nunca o offendeo. Está em seo direito, eu reconheço, e a somma não é para desprezar. Mas se quizer desistir completamente desse negocio, e deixar em paz essa escrava, dou-lhe o dobro dessa quantia.
--O dobro!... dez contos de réis! exclamou Martinho arregalando os olhos.
--Justamente; dez contos de réis e hoje mesmo.
--Mas, senhor Alvaro, já empenhei minha palavra para com o senhor da escrava, dei passos para esse fim, e...
--Que importa!... diga que ella evadio-se de novo, ou dê outra qualquer desculpa...
--Como, se é tão publico que ella se acha em poder de Vª. Sª.?...
--Ora!... isso é sua vontade, senhor Martinho; pois um homem vivo e atilado como o senhor embaraça-se com tão pouca cousa!...
--Vá feito,--disse Martinho depois de reflectir um instante.--Já que Vª. Sª. tanto se interessa por essa escrava, não quero mais affligil-o com semelhante negocio, que a dizer-lhe a verdade bem me repugna. Acceito a proposta.
--Obrigado; é um importante serviço que vae me prestar.
--Mas que volta darei eu ao negocio para sahir-me bem delle.
--Veja lá; sua imaginação é fertil em recursos, e ha-de inspirar-lhe algum meio de safar-se de difficuldades com a maior limpeza.
Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e com os olhos pregados no chão. Por fim levantando a cabeça e levando á testa o dedo indice:
--Atinei!--exclamou.--Dizer que a escrava desappareceo de novo, não é conveniente, e iria comprometter a Vª. Sª., que se responsabilizou por ella. Direi sómente, que bem averiguado o caso, reconheci que a moça, que Vª. Sª. tem em seo poder, não é a escrava em questão, e está tudo acabado.
--Essa não é mal achada ... mas foi um negocio tão publico...
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