A escrava IsauraPart 24

Part 24

Era quanto bastava a Leoncio para associal-a ao plano de castigo e vingança, que projectava contra a desditosa escrava. Bem sabia, que Malvina com a sua alma branda e compassiva jámais consentiria em castigos crueis; o que meditava porém nada tinha de barbaro na apparencia, se bem que fosse o mais humilhante e doloroso flagicio imposto ao coração de uma mulher, que tinha consciencia de sua belleza, e da nobreza e elevação de seo espirito.

--E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.

--Dar-lhe um marido e carta de liberdade.

--E já achaste esse marido?

--Pois faltão maridos?... para achal-o não precisei sair de casa.

--Algum escravo, Leoncio?... oh!... isso não.

--E que tinha isso, uma vez que eu tambem forrasse o marido? era cré com cré, lé com lé. Bem me lembrei do André, que bebe os ares por ella; mas por isso mesmo não a quero dar áquelle maroto. Tenho para ella peça muito melhor.

--Quem Leoncio?

--Ora quem!... o Belchior.

--O Belchior!... exclamou Malvina rindo-se muito.--Estás cassoando; falla serio, quem é?...

--É o Belchior, senhora; fallo serio.

--Mas esperas acaso, que Isaura queira casar-se com aquelle monstrengo?

--Se não quizer peor para ella; não lhe dou a liberdade, e ha-de passar a vida enclausurada e em ferros.

--Oh!... mas isso é demasiada crueldade, Leoncio. De que serve dar-lhe a liberdade em tudo, se não lhe deixas a de escolher um marido?... Dá-lhe a liberdade, Leoncio, e deixa ella casar-se com quem quizer.

--Ella não se casará com ninguem: irá voando direitinho para Pernambuco, e lá ficará muito lampeira nos braços de seo insolente taful, escarnecendo de mim...

--E que te importa isso, Leoncio?--perguntou Malvina com certo ar desconfiado.

--Que tenho!...--replicou Leoncio um pouco perturbado com a pergunta.--Ora que tenho!... é o mesmo que perguntar-me se tenho brio nas faces. Se soubesses como aquelle papalvo provocou-me atirando-me insultos atrozes!... como desafiou-me com mil bravatas e ameaças, protestando que havia de arrancar Isaura ao meo poder. Se não fosse por tua causa, e tambem por satisfazer os votos de minha mãe, eu nunca daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum serviço me prestasse, e tivesse de tratal-a como uma princeza, só para quebrar a prôa e castigar a audacia e petulancia desse impudente rufião.

--Pois bem, Leoncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente se deixará queimar viva, do que casar-se com Belchior.

--Não te dê isso cuidado, minha querida; havemos de catechizal-a convenientemente. Tenho cá forjado o meo plano, com o qual espero reduzil-a a casar-se com elle de muito boa vontade.

--Se ella consentir, não tenho motivo para me oppor a esse arranjo.

Leoncio de feito havia habilmente preparado o seo plano atroz. Tendo trazido do Recife a Miguel debaixo de prisão, juntamente com Isaura, ao chegar em Campos fêl-o encerrar na cadeia, e condenar a pagar todas as despezas e prejuizos que tivera com a fuga de Isaura, as quaes fizera orçar em uma somma exorbitante. Ficou portanto o pobre homem exausto dos ultimos recursos que lhe restavão, e ainda por sobre-carga devendo uma somma enorme, que só longos annos de trabalho poderião pagar. Como Leoncio era rico, amigo dos ministros, e tinha grande influencia no lugar, as autoridades locaes prestárão-se de boa mente a todas estas perseguições.

Depois que Leoncio, desanimado de poder vencer a obstinada reluctancia de Isaura, mudou o seo plano de vingança, foi elle em pessoa procurar a Miguel.

--Senhor Miguel,--disse-lhe em tom formalizado,--tenho commiseração do senhor e de sua filha, apesar dos incommodos e prejuizos que me tem dado, e venho propor-lhe um meio de acabarmos de uma vez para sempre com as desordens, intrigas e transtornos, com que sua filha tem perturbado minha casa e o soсego de minha vida.

--Estou prompto para qualquer arranjo, senhor Leoncio,--respondeo respeitosamente Miguel,--uma vez que seja justo e honesto.

--Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com um homem de bem, e dar-lhe a liberdade; porém para esse fim preciso muito de sua coadjuvação.

--Pois diga em que lhe posso servir.

--Sei que Isaura ha-de sentir alguma repugnancia em casar-se com a pessoa que lhe destino, em razão de tola e extravagante paixão, que parece ainda ter por aquelle infame peralvilho de Pernambuco, que metteo-lhe mil caraminholas na cabeça, e encheo-a de idéas extravagantes e loucas esperanças.

--Creio que ella não deve lembrar-se desse moço senão por gratidão....

--Qual gratidão!... pensa vm.^{ce} que elle está fazendo muito caso della?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquillo foi um capricho de cabeça estonteada, uma phantasia de fidalgote endinheirado, e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem cerimonia de escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece esta?... que tenho eu com seo casamento!... Mas isto ainda não é tudo; aproveitando a occasião, pede-me com todo o desfaçamento que em todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o faça sem participar-lhe, porque muito deseja têl-a para mucama de sua senhora! É até onde pode chegar o cynismo e a impudencia!...

--Com effeito, senhor!... isto da parte do senhor Alvaro é custoso de acreditar!

--Pois capacite-se com seos proprios olhos; leia; não conhece esta letra?...

E dizendo isto Leoncio apresentava a Miguel uma carta, cuja letra imitava perfeitamente a de Alvaro.

--A letra é delle; não resta duvida,--disse Miguel pasmado do que acabava de ler.--Ha neste mundo infamias, que custa-se a comprehender.

--E tambem lições crueis, que é preciso não desprezar, não é assim, senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar á sua filha; é bom que ella saiba de tudo para não contar mais com esse homem, e varrer do espirito as fumaças que por ventura ainda lhe toldão o juizo. Faça tambem vm.^{ce} o que estiver em seo possivel a fim de predispôr sua filha para esse casamento, que é de muita vantagem, e eu não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe restituo o que já me deo, para vm.^{ce} abrir um negocio aqui em Campos e viver tranquillamente o resto de seos dias, em companhia de sua filha e de seo genro.

--Mas quem é esse genro? Vª. Sª. me não disse ainda.

--É verdade;... esquecia-me. É o Belchior, o meo jardineiro; não conhece?...

--Muito!... oh! senhor!... com que miseravel figura quer casar minha filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ella queira.

--Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e trabalhador?...

--Lá isso é verdade; o ponto é ella querer.

--Estou certo que aconselhada e bem catechisada por vm.^{ce} ha-de se resolver.

--Farei o que puder; mas tenho poucas esperanças.

--E se não quizer, peor para ella e para vm.^{ce}: o dito por não dito; fica tudo como estava,--disse terminantemente Leoncio.

Miguel não era homem de tempera a luctar contra a adversidade. O captiveiro e reclusão perenne de sua filha, a miseria que se lhe antolhava acompanhada de mil angustias, erão para elle phantasmas hediondos, cujo aspecto não podia encarar sem sentir mortal pavor e abatimento. Não achou muito oneroso o preço pelo qual o deshumano senhor, livrando-o da miseria, concedia liberdade á sua filha, e acceitou o convenio.

Capitulo XX.

Emquanto Rosa e André espanejavão os moveis do salão, tagarellando alegremente, uma scena bem triste e compungente se passava em um escuro aposento attinente ás senzalas, onde Isaura sentada sobre um cepo, com um dos alvos e mimosos artelhos preso por uma corrente cravada á parede, ha dous mezes se achava encarcerada.

Miguel ahi tinha sido introduzido por ordem de Leoncio, para dar parte á filha do projecto de seo senhor, e exortal-a a acceitar o partido que lhes propunha. Era pungente e desolador o quadro que apresentavão aquellas duas miseras creaturas, palidas, extenuadas e abatidas pelo infortunio, encerrados em uma estreita e lobrega espelunca. Ao se encontrarem depois de dous longos mezes, mais opprimidos e desgraçados que nunca, a primeira linguagem com que se saudárão, não foi mais do que um chôro de lagrimas e soluços de indizivel angustia, que abraçados por largo tempo estivérão entornando no seio um do outro.


--Sim, minha filha; é preciso que te resignes a esse sacrificio, que é desgraçadamente o unico recurso que nos deixão. É com esta condição, que venho abrir-te as portas desta triste prisão, em que ha dous mezes vives encerrada. É sem duvida um cruel sacrificio para teo coração; mas é sem comparação mais supportavel do que esse duro captiveiro, com que pretendem matar-te.

--É verdade, meo pae; o meo carrasco dá-me a escolha entre dous jugos; mas eu ainda não sei qual dos dous será mais odioso e insupportavel. Eu sou linda, dizem; fui educada como uma rica herdeira; inspirárão-me uma alta estima de mim mesma com o sentimento do pudor e da dignidade da mulher; sou uma escrava, que faz muita moça formosa morder-se de inveja; tenho dotes incomparaveis do corpo e do espirito; e tudo isto para que, meo Deos!?... para ser dada de mimo a um misero idiota!... Pode-se dar mais cruel e pungente escarneo?!...

E uma risada convulsiva e sinistra desprendeo-se dos labios descorados de Isaura, e reboou pelo lugubre aposento, como o estridulo ulular do mocho entre os sepulchros.

--Não é tanto como se te afigura na imaginação abalada pelos soffrimentos. O tempo pode muito, e com paciencia e resignação has-de te acostumar a esse novo viver, sem duvida muito mais suave do que este inferno de martyrios, e poderemos ainda gozar dias senão felizes, ao menos mais tranquillos e serenos.

--Para mim a tranquillidade não pode existir senão na sepultura, meo pae. Entre os dous supplicios que me deixão a escolher, eu vejo ainda alguma cousa, que me sorri como uma idéa consoladora, um recurso extremo, que Deos reserva para os desgraçados, cujos males são sem remedio.

--É da resignação sem duvida, que queres fallar, não é, minha filha?...

--Ah! meo pae, quando a resignação não é possivel, só a morte...

--Cala-te, filha!... não digas blasphemias e palavras loucas. Eu quero, eu preciso, que tu vivas. Terás animo de deixar teo pae neste mundo sósinho, velho e entregue á miseria e ao desamparo? Se me faltares, o que será de mim nas tristes conjuncturas em que me deixas?...

--Perdoe-me, meo bom, meo querido pae; só em um caso extremo eu me lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meo pae, e é isso que eu quero; mas para isso será preciso que eu me case com um disforme?... oh! isto é escarneo e opprobrio demais! Tenhão-me debaixo do mais rigoroso captiveiro, ponhão-me na roça de enxada na mão, descalça e vestida de algodão, castiguem-me, tratem-me em fim como a mais vil das escravas, mas por caridade poupem-me este ignominioso sacrificio!...

--Belchior não é tão disforme como te parece; e demais o tempo e o costume te farão familiarisar com elle. Ha muito tempo não o vês; com a idade elle vae-se endireitando, que é elle ainda muito creança. Agora o desconhecerás; já não tem aquelle exterior tão grosseiro e desagradavel, e tem tomado outras maneiras menos toscas. Toma animo, minha filha; quando sahires deste triste calabouço, o ar da liberdade te restituirá a alegria e a tranquillidade, e mesmo com o marido que te dão poderás viver feliz....

--Feliz!--exclamou Isaura com amargo sorriso;--não me falle em felicidade, meo pae. Se ao menos eu tivesse o coração livre como outróra ... se não amasse a ninguem. Oh!... não era preciso que elle me amasse, não; bastava que me quizesse para escrava, aquelle anjo de bondade, que em vão empregou seos generosos esforços para arrancar-me deste abysmo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher desse pobre homem, com quem me querem casar! Mas ai de mim! devo eu pensar mais nelle? pode elle, nobre e rico cavalheiro, lembrar-se ainda da pobre e infeliz captiva!...

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