A escrava IsauraPart 8
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As outras escravas a contemplavão todas com certo interesse e comiseração, por que de todas era querida, menos de Rosa, que lhe tinha inveja e aversão mortal. Em duas palavras o leitor ficará inteirado do motivo desta malevolencia de Rosa. Não era só pura inveja; havia ahi alguma cousa de mais positivo, que convertia essa inveja em odio mortal. Rosa havia sido de ha muito a amasia de Leoncio, para quem fôra facil conquista, que não lhe custou nem rogos nem ameaças. Desde que porém inclinou-se a Isaura, Rosa ficou inteiramente abandonada e esquecida. A gentil mulatinha sentio-se cruelmente ferida em seo coração com esse desdem, e como era maligna e vingativa, não podendo vingar-se de seo senhor, jurou descarregar todo o peso de seo rancor sobre a pessoa de sua infeliz rival.
--Um raio que te parta, maldito!--Má lepra te consuma, cousa ruim!--Uma cascavel que te morda a lingoa, cão danado?--Estas e outras pragas vomitavão as escravas resmungando entre si contra o feitor, apenas este voltou-lhes as costas. O feitor é o ente mais detestado entre os escravos; um carrasco não carrega com tantos odios. É abominado mais do que o senhor cruel, que o munio do azorrague desapiedado para açoital-os e acabrunhal-os de trabalhos. É assim, que o paciente se esquece do juiz, que lavrou a sentença para revoltar-se contra o algôz, que a executa.
Como já dissemos, coube em sorte a Isaura sentar-se perto de Rosa. Esta assestou logo contra sua infeliz companheira a sua bateria de dicterios e remoques sarcasticos e irritantes.
--Tenho bastante pena de você, Isaura, disse Rosa para dar começo ás operações.
--Devéras!--respondeo Isaura, disposta a oppor ás provocações de Rosa toda a sua natural brandura e paciencia.--Pois por que, Rosa?...
--Pois não é duro mudar-se da sala para a senzala, trocar o sofá de damasco por esse cepo, o piano e a almofada de cetim por essa roda? Por que te enxotárão de lá Isaura?
--Ninguem me enxotou, Rosa; você bem sabe. Sinhá Malvina foi-se embora em companhia de seo irmão para a casa do pae della. Portanto nada tenho que fazer na sala, e é por isso que venho aqui trabalhar com vocês.
--E por que é, que ella não te levou, você, que era o ai! Jesus della?... Ah! Isaura, você cuida que me embaça, mas está muito enganada; eu sei de tudo. Você estava ficando muito aperaltada, e por isso veio aqui para conhecer o seo lugar.
--Como és maliciosa!--replicou Isaura sorrindo tristemente, mas sem se alterar;--pensas então que eu andava muito contente e cheia de mim por estar lá na sala no meio dos brancos?... como te enganas!... se me não perseguires com a tua má lingua, como principias a fazer, creio que hei-de ficar mais satisfeita e socegada aqui.
--Nessa não creio eu; como é que você pode ficar satisfeita aqui, se não acha moços para namorar?
--Rosa, que mal te fiz eu, para estares assim a amofinar-me com essas fallas?...
--Olhe a sinhá não se zangue!... perdão, dona Isaura; eu pensei, que a senhora tinha esquecido os seos melindres lá no salão.
--Podes dizer o que quiseres, Rosa; mas eu bem sei, que na sala ou na cosinha eu não sou mais do que uma escrava como tu. Tambem deves-te lembrar, que se hoje te achas aqui, ámanhã sabe Deos onde estarás. Trabalhemos, que é nossa obrigação, e deixemos dessas conversas que não tem graça nenhuma.
Neste momento ouvem-se as badaladas de uma sineta; erão tres para quatro horas da tarde; a sineta chamava os escravos a jantar. As escravas suspendem seos trabalhos, e levantão-se; Isaura porém não se move, e continúa a fiar.
--Então?--diz-lhe Rosa com o seo ar escarninho,--você não ouve, Isaura? são horas; vamos ao feijão.
--Não, Rosa; deixem-me ficar aqui; não tenho fome nenhuma. Fico adiantando minha tarefa, que principiei muito tarde.
--Tem razão; tambem uma rapariga civilisadona e mimosa como você não deve comer do caldeirão dos escravos. Quer que te mande um caldinho, um chocolate?...
--Cala essa boca, tagarella!--bradou a creoula velha, que parecia ser a priora daquelle rancho de fiandeiras.--Forte linguinha de vibora!... deixa a outra socegar. Vamos, minha gente.
As escravas retirárão-se todas do salão, ficando só Isaura, entregue ao seo trabalho e mais ainda ás suas tristes e inquietadoras reflexões. O fio se estendia como que machinalmente entre seos dedos mimosos, emquanto o pésinho nu e delicado, abandonando o tamanquinho de marroquim, pousava sobre o pedal da roda, a que dava automatico impulso. A fronte lhe pendia para um lado como assucena esmorecida, e as palpebras meio cerradas eram como véos melancolicos, que encobrião um pégo insondavel de tristura e desconforto. Estava deslumbrante de belleza naquella encantadora e singela attitude.
--Ah! meo Deos!--pensava ella; nem aqui posso achar um pouco de socego!... em toda parte jurárão martyrizar-me!... Na sala os brancos me perseguem, e armão mil intrigas e enredos para me atormentarem. Aqui, onde entre minhas parceiras, que parecem me querer bem, esperava ficar mais tranquilla, ha uma, que por inveja ou seja lá pelo que fôr, me olha de revés e só trata de achincalhar-me. Meo Deos! meo Deos!... já que tive a desgraça de nascer captiva, não era melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das negras, do que ter recebido do céo estes dotes, que só servem para amargurar-me a existencia?
Isaura não teve muito tempo para dar larga expansão ás suas angustiosas reflexões. Ouvio rumor na porta, e levantando os olhos vio que alguem se encaminhava para ella.
--Ai! meo Deos!--murmurou comsigo.--Ahi temos nova importunação! nem ao menos me deixão ficar sósinha um instante.
Quem entrava, era sem mais nem menos, o pajem André, que já vimos em companhia do feitor, e que mui ancho, empertigado e petulante se foi collocar defronte de Isaura.
--Boa tarde, linda Isaura. Então, como vae essa flor?--saudou o pachola do pajem com toda a faceirice.
--Bem, respondeo secamente Isaura.
--Estás amuada?... tens razão, mas é preciso ir-se accomodando com este novo modo de vida. Devéras que para quem estava acostumada lá na sala, no meio de sedas e flores e agoas de cheiro, ha-de ser bem triste ficar aqui mettida entre estas paredes enfumaçadas que só tresandão a sarro de pito e murrão de candeia.
--Tambem tu, André, vens por tua vez aproveitar-te da occasião para me atirar lama na cara?...
--Não, não, Isaura; Deos me livre de te offender; pelo contrario, dóe-me devéras dentro do coração ver aqui misturada com esta corja de negras beiçudas e catinguentas uma rapariga como tu, que só merece pisar em tapetes e deitar em colchões de damasco. Este senhor Leoncio tem mesmo um coração de fera.
--E que te importa isso? eu estou bem satisfeita aqui.
--Qual!... não acredito; não é aqui teo lugar. Mas tambem por outra banda estimo bem isso.
--Por que?
--Por que, emfim, Isaura, a fallar-te a verdade gosto muito de você, e aqui ao menos podemos conversar mais em liberdade...
--Devéras!... declaro-te desde já, que não estou disposta a ouvir tuas liberdades.
--Ah! é assim!--exclamou André todo enfunado com este brusco desengano.--Então a senhora quer só ouvir as finezas dos moços bonitos lá na sala!... pois olha, minha camarada, isso nem sempre pode ser, e cá da nossa laia não és capaz de encontrar rapaz de melhor figura, do que este seo criado. Ando sempre engravatado, enluvado, calçado, engomado, agaloado, perfumado, e o que mais é,--acrescentou batendo com a mão na algibeira,--com as algibeiras sempre a tinir. A Rosa, que tambem é uma rapariguinha bem bonita, bebe os ares por mim; mas coitada!... o que é ella ao pé de você?... Enfim, Isaura, se você soubesse quanto bem te quero, não havias de fazer tão pouco caso de mim. Se tu quizesses, olha ... escuta.
E dizendo isto o maroto do pajem, avisinhando-se de Isaura, foi-lhe lançando desembaraçadamente o braço em torno do collo, como quem queria fallar-lhe em segredo, ou talvez furtar-lhe um beijo.
--Alto lá!--exclamou Isaura repellindo-o com enfado.--Está ficando bastante adiantado e atrevido. Retire-se daqui, senão irei dizer tudo ao senhor Leoncio.
--Oh! perdoa, Isaura; não ha motivo para você se arrufar assim. És muito má, para quem nunca te offendeo, e te quer tanto bem. Mas deixa estar, que o tempo ha-de-te amaciar esse coraçãosinho de pedra. Adeos; eu já me vou embora; mas olha lá, Isaura; pelo amor de Deos, não vá dizer nada a ninguem. Deos me livre que sinhô moço saiba do que aqui se passou; era capaz de me enforcar. O que vale,--continuou André comsigo e retirando-se,--o que vale é que neste negocio parece-me que elle anda tão adiantado como eu.
Pobre Isaura! sempre e em toda parte esta continúa importunação de senhores e de escravos, que não a deixão socegar um só momento! Como não devia viver afflicto e attribulado aquelle coração! Dentro de casa contava ella quatro inimigos, cada qual mais porfiado em roubar-lhe a paz da alma, e torturar-lhe o coração: tres amantes, Leoncio, Belchior, e André, e uma emula terrivel e desapiedada, Rosa. Facil lhe fôra repellir as importunações e insolencias dos escravos e creados; mas que seria della, quando viesse o senhor!?...
De feito, poucos instantes depois Leoncio, acompanhado pelo feitor, entrava no salão das fiandeiras. Isaura, que um momento suspendera o seo trabalho, e com o rosto escondido entre as mãos se embevecia em amargas reflexões, não se apercebera da presença delles.
--Onde estão as raparigas que aqui costumão trabalhar?... perguntou Leoncio ao feitor, ao entrar no salão.
--Forão jantar, senhor; mas não tardarão a voltar.
--Mas uma cá se deixou ficar ... ah! é a Isaura ... Ainda bem!--reflectio comsigo Leoncio,--a occasião não pode ser mais favoravel; tentemos os ultimos esforços para reduzir aquella empedernida creatura. Logo que acabem de comer,--continuou elle dirigindo-se ao feitor,--leve-as para a colheita do café. Ha muito que eu pretendia recomendar-lhe isto e tenho-me esquecido. Não as quero aqui mais nem um instante; isto é um lugar de vadiação, em que perdem o tempo sem proveito algum, em continuas palestras. Não falta por ahi tecidos de algodão para se comprar.
Mal o feitor se retirou, Leoncio dirigio-se para junto de Isaura.
--Isaura! murmurou com voz meiga e commovida.
--Senhor!--respondeo a escrava erguendo-se sobresaltada; depois murmurou tristemente dentro d’alma:--meo Deos! é elle!... é chegada a hora do supplicio.
Capitulo VIII.
Agora nos é indispensavel abandonar por alguns instantes Isaura em sua penivel situação diante de seo dissoluto e barbaro senhor para informarmos o leitor sobre o que occorrera no seio daquella pequena familia, e em que pé ficárão os negocios da casa, depois que a noticia da morte do commendador, estalando como uma bomba no meio das intrigas domesticas, veio dar-lhes dolorosa diversão no momento, em que ellas refervendo no mais alto gráo de ebullição, reclamavão forçosamente um desenlace qualquer.
Aquella morte não podia senão prolongar tão melindrosa e deploravel situação, pondo nas mãos de Leoncio toda a fortuna paterna, e desatando as ultimas peias, que ainda o tolhião na expansão de seos abominaveis instinctos.
Leoncio e Malvina estivérão de nojo encerrados em casa por alguns dias, durante os quaes parece que derão tregoas aos arrufos e despeitos reciprocos. Henrique, que queria absolutamente partir no dia seguinte, cedendo emfim aos rogos e instancias de Malvina, consentio em ficar-lhe fazendo companhia durante os dias de nojo.
--Conforme fôr o procedimento de meo marido, disse-lhe ella,--iremos juntos. Se por estes dias não der liberdade e um destino qualquer a Isaura, não ficarei mais nem um momento em sua casa.
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