A escrava IsauraPart 11

Part 11

--Isaura,--disse Leoncio com voz aspera apontando para os instrumentos de supplicio,--eis ali o que te espera, se persistes em teo louco emperramento. Nada mais tenho a dizer-te; deixo-te livre ainda, e fica-te o resto do dia para reflectires. Tens de escolher entre o meo amor e o meo odio. Qualquer dos dous, tu bem sabes, são violentos e poderosos. Adeos!...

Quando Isaura sentio, que seo senhor se havia ausentado, ergueo o rosto, e levantando ao céo os olhos e as mãos juntas, dirigio á Rainha dos anjos a seguinte fervorosa prece, exalada entre soluços do mais intimo de sua alma:

--Virgem senhora da Piedade, Santissima Mãe de Deos!... vós sabeis se eu sou innocente, e se mereço tão cruel tratamento. Soccorrei-me neste transe afflictivo, por que neste mundo ninguem pode valer-me. Livrae-me das garras de um algôz, que ameaça não só a minha vida, como a minha innocencia e honestidade. Illuminai-lhe o espirito, e infundi-lhe no coração brandura e misericordia, para que se compadeça de sua infeliz captiva. É uma humilde escrava, que com as lagrimas nos olhos, e a dor no coração vos roga pelas vossas dores sacrosantas, pelas chagas de vosso Divino Filho: valei-me por piedade.

Quanto Isaura era formosa naquella supplicante e angustiosa attitude! oh! muito mais bella do que em seos momentos de serenidade e prazer!... se a visse então Leoncio talvez sentisse abrandar-se o ferreo e obcecado coração. Com os olhos arrasados em lagrimas, que em fio lhe escorregavão pelas faces desbotadas, entre-aberta a boca melancolica, que lhe tremia ao passar da prece murmurada entre soluços, atiradas em desordem pelas espaduas as negras e opulentas madeixas, voltando para o céo o busto mavioso plantado sobre um collo escultural, offereceria ao artista inspirado o mais bello e sublime modelo para a effigie da Mãe Dolorosa, a quem nesse momento dirigia suas ardentes supplicas. Os anjos do céo, que por certo naquelle instante adejavão em torno della agitando as azas de ouro e carmim, não podião deixar de levar tão fervida e dolorosa prece aos pés do throno da Consoladora dos afflictos.

Absorvida em suas magoas Isaura não vio seo pae, que entrando pelo salão a passos subtis e cautelosos, encaminhava-se para ella.

--Oh! felizmente ella ali está,--murmurava o velho,--o algôz aqui tambem andava! oh! pobre Isaura!... que será de ti!...

--Meo pae por aqui!...--exclamou a infeliz ao avistar Miguel.--Venha, venha ver a que estado reduzem sua filha.

--Que tens, filha?... que nova desgraça te succede?

--Não está vendo, meo pae?... eis ali a sorte, que me espera,--respondeu ella apontando para o tronco e as algemas, que ali estavam ao pé della.

--Que monstro, meo Deos!... mas eu já esperava por tudo isto...

--É esta a liberdade que pretende dar áquella, que a mãe delle creou com tanto amor e carinho. O mais cruel e aviltante captiveiro, um martyrio continuado da alma e do corpo, eis o que resta á sua desventurada filha... Meo pae, não posso resistir a tanto soffrimento!... restava-me um recurso extremo; esse mesmo vai-me ser negado. Presa, algemada, amarrada de pés e mãos!... oh!... meo pae! meo pae!... isto é horrivel!... Meu pai, a sua faca,--acrescentou depois de ligeira pausa com voz rouca e olhar sombrio,--preciso de sua faca.

--Que pretendes fazer com ella, Isaura? que louco pensamento é o teo?...

--Dê-me essa faca, meo pae; eu não usarei della senão em caso extremo; quando o infame vier lançar-me as mãos para deitar-me esses ferros, farei saltar meo sangue ao rosto vil do algôz.

--Não, minha filha; não serão necessarios taes extremos. Meo coração já adivinhava tudo isto, e já tenho tudo prevenido. O dinheiro, que não servio para alcançar a tua liberdade, vae agora prestar-nos para arrancar-te ás garras desse monstro. Tudo está já disposto, Isaura. Fujamos.

--Sim, meo pae, fujamos; mas como? para onde?

--Para longe daqui, seja para onde fôr; e já, minha filha, emquanto não suspeitão cousa alguma, e não te carregão de ferros.

--Ah! meo pae, tenho bem medo; se nos descobrem, qual será a minha sorte!...

--A empreza é arriscada, não posso negar-te; mas animo, Isaura; é nossa unica taboa de salvação; agarremo-nos a ella com fé, e encommendemo-nos á divina providencia. Os escravos estão na roça; o feitor levou para o cafesal tuas companheiras, teo senhor sahio a cavallo com o André; não ha talvez em toda a casa senão alguma negra lá pelos cantos da cosinha. Aproveitemos a occasião, que parece mesmo nos vir das mãos de Deos no momento, em que aqui estou chegando. Eu já preveni tudo. Lá no fundo do quintal á beira do rio está amarrada uma canoa; é quanto nos basta. Tu sahirás primeiro e irás lá ter por dentro do quintal; eu sahirei por fora alguns instantes depois e lá nos encontraremos. Em menos de uma hora estaremos em Campos, onde nos espera um navio, de que é capitão um amigo meo, e que tem de seguir viagem para o norte nesta madrugada. Quando romper o dia, estaremos longe do algôz, que te persegue. Vamo-nos, Isaura; talvez por esse mundo encontremos alguma alma piedosa, que melhor do que eu te possa proteger.

--Vamo-nos, meo pae; que posso eu recear?... posso acaso ser mais desgraçada do que já sou?...

Isaura cosendo-se com a sombra do muro, que rodeava o pateo, abrio o portão, que dava para o quintal, e desappareceo. Momentos depois Miguel rodeando por fora os edificios costeava o quintal, e achava-se com ella á margem do rio.

A canoa vogando subtilmente bem junto á barranca, impellida pelo braço vigoroso de Miguel, em poucos minutos perdeo de vista a fazenda.

Capitulo X.

Já são passados mais de dous mezes depois da fuga de Isaura, e agora, leitores, em quanto Leoncio emprega diligencias extraordinarias e meios extremos, e desatando os cordões da bolsa, põe em actividade a policia e uma multidão de agentes particulares para empolgar de novo a presa, que tão sorrateiramente lhe escapára, façamo-nos de véla para as provincias do norte, onde talvez primeiro que elle deparemos com a nossa fugitiva heroina.

Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da America do Sul, coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano, que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite festiva: em uma das principaes ruas nota-se um edificio esplendidamente illuminado, para onde concorre grande numero de cavalheiros e damas das mais distinctas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saráos. Alguns estudantes dos mais ricos e elegantes, tambem costumão descer da velha Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os esplendores e harmonias, entre as sedas e perfumes do salão do baile; e aos meigos olhares e angelicos sorrisos das bellas e espirituosas pernambucanas, esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia e os carunchosos praxistas.

Supponhamos que tambem somos adeptos daquelle templo de Terpsicore, entremos por elle a dentro, e observemos o que por ahi vai de curioso e interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de elegantes mancebos, que conversam com alguma animação. Escutemol-os.

--É mais uma estrella, que vem brilhar nos salões do Recife,--dizia Alvaro,--e dar lustre a nossos saráos. Não ha ainda tres mezes, que chegou a esta cidade, e haverá pouco mais de um, que a conheço. Mas creia-me, D^{r}. Geraldo, é ella a creatura mais nobre e encantadora que tenho conhecido. Não é uma mulher; é uma fada, é um anjo, é uma deosa!...

--Caspite!--exclamou o D^{r}. Geraldo; fada! anjo! deosa!... são portanto tres entidades distinctas, mas por fim de contas verás que não passa de uma mulher verdadeira. Mas dize-me cá, meo Alvaro; esse anjo, fada, deosa, mulher ou o que quer que seja, não te disse d’onde veio, de que familia é, se tem fortuna, etc., etc., etc.

--Pouco me importo com essas cousas, e poderia responder-te que veio do céo, que é da familia dos anjos, e que tem uma fortuna superior a todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e intelligente, e uma belleza incomparavel. Mas sempre te direi que o que sei de positivo a respeito della é que veio do Rio-Grande do Sul em companhia de seo pae, de quem é ella a unica familia; que seos meios são bastantemente escassos, mas que em compensação ella é linda como os anjos, e tem o nome de Elvira.

--Elvira!--observou o terceiro cavalheiro--bonito nome na verdade!... mas não poderás dizer-nos, Alvaro, onde mora a tua fada?...

--Não faço mysterio disso; mora com seo pae em uma pequena chacara no bairro de Santo Antonio, onde vivem modestamente, evitando relações, e apparecendo mui raras vezes em publico. Nessa chacara, escondida entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive ella como a violeta entre a folhagem, ou como fada mysteriosa em uma gruta encantada.

--É celebre!--retorquio o doutor--mas como chegaste a descobrir essa nympha encantada, e a ter entrada em sua gruta mysteriosa?

--Eu vos conto em duas palavras. Passando eu um dia a cavallo por sua chacara, avistei-a sentada em um banco do pequeno jardim da frente. Sorprehendeo-me sua maravilhosa belleza. Como vio que eu a contemplava com demasiada curiosidade, esgueirou-se como uma borboleta entre os arbustos floridos e desappareceo. Formei o firme proposito de vel-a e de falar-lhe, custasse o que custasse. Por mais porém, que indagasse por toda a visinhança, não encontrei uma só pessoa, que se relacionasse com ella, e que pudesse apresentar-me. Indaguei por fim quem era o proprietario da chacara, e fui ter com elle. Nem esse podia dar-me informações, nem servir-me em cousa alguma. O seo inquilino vinha todos os meses pontualmente adiantar o aluguel da chacara; eis tudo quanto a respeito delle sabia. Todavia continuei a passar todas as tardes por defronte do jardim, mas a pé para melhor poder sorprehendel-a e admiral-a; quasi sempre porém sem resultado. Quando acontecia estar no jardim, esquivava-se sempre ás minhas vistas como da primeira vez. Um dia porém quando eu passava, cahio-lhe o lenço ao levantar-se do banco; a grade estava aberta; tomei a liberdade de penetrar no jardim, apanhei o lenço, e corri a entregar-lho, quando já ella punha o pé na soleira de sua casa. Agradeceo-me com um sorriso tão encantador, que estive em termos de cahir de joelhos a seos pés; mas não mandou-me entrar, nem fez-me offerecimento algum.

--Esse lenço, Alvaro,--atalhou um cavalheiro,--de certo ella o deixou cahir de proposito, para que pudesses vel-a de perto e fallar-lhe. É um apuro de romantismo, um delicado rasgo de coquetterie.

--Não creio; não ha naquelle ente nem sombra de coquetterie; tudo nella respira candura e singeleza. O certo é que custei a arrancar meos pés daquelle lugar, onde uma força magnetica me retinha, e que parecia rescender um mysterioso effluvio de amor, de pureza e de ventura...

Alvaro pára em sua narrativa, como que embevecido em tão suaves recordações.

--E ficaste nisso, Alvaro!--perguntava outro cavalheiro;--o teo romance está-nos interessando; vamos por diante, que estou afflicto por ver a peripecia...

--A peripecia?... oh! essa ainda não chegou, e nem eu mesmo sei qual será. Esgotei em fim os estratagemas possiveis para ter entrada no sanctuario daquella deosa; mas foi tudo baldado. O acaso em fim veio em meo socorro, e servio-me melhor do que toda a minha habilidade e diligencia. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo Antonio, pelas margens do Beberibe, passeio que se tornára para mim uma devoção, avistei um homem e uma mulher navegando a todo panno em um pequeno bote.

Instantes depois o bote achou-se encalhado em um banco de areia. Apeei-me imediatamente, e tomando um escalér na praia, fui em soccorro dos dois navegantes que em vão forcejavão por safar a pequena embarcação. Não podem fazer idéa da deliciosa surpresa que senti, ao reconhecer nas duas pessoas do bote a minha mysteriosa da chacara e seo pae...

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