A escrava IsauraPart 17

Part 17

Côr clara e tez delicada como de qualquer branca; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma côr, compridos e ligeiramente ondeados; boca pequena, rosada e bem feita; dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado; cintura delgada, talhe esbelto, e estatura regular; tem na face esquerda um pequeno signal preto, e acima do seio direito um signal de queimadura, mui semelhante a uma aza de borboleta. Traja-se com gosto e elegancia; canta e toca piano com perfeição. Como teve excellente educação e tem uma boa figura, pode passar em qualquer parte por uma senhora livre e de boa sociedade. Fugio em companhia de um portuguez, por nome Miguel, que se diz seo pae. É natural, que tenhão mudado o nome. Quem a appreender, e levar ao dito seo senhor, além de se lhe satisfazerem todas as despezas, receberá a gratificação de 5:000:000 de réis--.

--Devéras, Martinho?--exclamou um dos ouvintes,--está nesse papel o que acabo de ouvir? acabas de nos traçar o retrato de Venus, e vens dizer-nos que é uma escrava fugida!!...

--Se não querem acreditar ainda, leião com seos proprios olhos: aqui está o papel...

--Com effeito!--accrescentou outro--uma escrava assim vale a pena apprehendel-a, mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos. Se eu a pilho, nenhuma vontade teria de entregal-a ao seo senhor.

--Já não me admira que o Martinho a procure aqui; uma creatura tão perfeita só se pode encontrar nos palacios dos principes.

--Ou no reino das fadas; e pelos signaes e indicios estou vendo, que não pode ser outra senão essa nova divindade que hoje appareceo....

--Sem mais nem menos; deo no vinte,--atalhou Martinho, e chamando-os para junto da porta:

--Agora venhão cá,--continuou,--e reparem naquella bonita moça, que dansa de par com Alvaro. Pobre Alvaro, como está cheio de si! se soubesse com quem dansa, cahia-lhe a cara aos pés. Reparem bem, meos senhores, e vejão se não combinão perfeitamente os signaes?...

--Perfeitamente!--acudio um dos moços,--é extraordinario! lá vejo o signalsinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça. Se tiver a tal aza de borboleta sobre o seio, não pode haver mais duvida. Ó céos! é possivel que uma moça tão linda seja uma escrava!

--E que tenha a audacia de apresentar-se em um bailes destes?--accrescentou outro.--Ainda não posso capacitar-me.

--Pois cá para mim,--disse o Martinho--o negocio é liquido, assim como os cinco contos, que me parece estarem já me cantando na algibeira; e até logo, meos caros.

E dizendo isto dobrou cuidadosamente o annuncio, meteo-o na algibeira, e esfregando as mãos com cynico contentamento, tomou o chapéo, e retirou-se.

--Forte miseravel!...--disse um dos comparsas--que vil ganancia de ouro a deste Martinho! estou vendo, que é capaz de fazer prender aquella moça aqui mesmo em pleno baile.

--Por cinco contos é capaz de todas as infamias do mundo. Tão vil creatura é um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos todos conspirar para expellil-o da Academia. Cinco contos daria eu para ser escravo daquella rara formosura.

--É assombroso! Quem diria, que debaixo daquella figura de anjo estaria occulta uma escrava fugida!

--E tambem quem nos diz, que no corpo da escrava não se acha asylada uma alma de anjo?...

Capitulo XIV.

Havia terminado a quadrilha. Alvaro ufano e cheio de jubilo, conduzia o seo formoso par atravéz da multidão, atravéz de uma viva fusilaria de olhares de inveja e de admiração, que se cruzavão em sua passagem; a pretexto de offerecer-lhe algum refresco, a foi levando para uma sala dos fundos, que se achava quasi deserta. Até ali ainda elle não havia feito a Elvira uma declaração de amor em termos positivos, se bem que esse amor se estivesse revelando a cada instante, e cada vez mais ardente e apaixonado, em seos olhos, em suas palavras, em todos os seos movimentos e acções. Alvaro julgava já ter adquirido completo conhecimento do coração de sua amada, e nos dous mezes durante os quaes a havia estudado, não havia descoberto nella senão novos encantos e perfeições. Estava plenamente convencido, que de todas as formosuras que até ali tinha conhecido, Elvira era em tudo a mais digna de seo amor, e já nem por sombras duvidava da pureza de sua alma, da sinceridade do seo affecto. Pensava portanto, que sem receio algum de comprometter o seo futuro, podia abandonar o coração ao imperio daquella paixão, que já não podia dominar. Quanto á origem e procedencia de Elvira, era cousa de que nem de leve se preoccupava, e nunca se lembrou de indagar. A distincção de classes repugnava a seos principios e sentimentos philantropicos. Fosse ella uma princeza que o destino obrigava a andar foragida, ou tivesse o berço na palhoça de algum pobre pescador, isso lhe era indifferente. Conhecia-a em si mesma, sabia que era uma das creaturas mais perfeitas e adoraveis que se pode encontrar sobre a terra, e era quanto lhe bastava.

Observava Alvaro em seos costumes, como já sabemos, a severidade de um quaker, e seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado á formosa desconhecida, aninhando em seo espirito um pensamento de seducção.

Naquella noite pois o apaixonado mancebo, rendido e deslumbrado mais que nunca pelos novos encantos e attractivos, que Elvira alardeava entre os esplendores do baile, não poude e nem quiz dilatar por mais tempo a declaração, que a cada instante lhe ardia nos olhos, e esvoaçava pelos labios, e apenas achou-se em lugar onde pudesse não ser ouvido senão de Elvira:

--D. Elvira,--lhe disse com voz grave e commovida,--se a senhora é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deosa. O meo coração ha muito já lhe pertence; sinto que o meo destino de hoje em diante depende só da senhora. Funesta ou propicia, a senhora será sempre a minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor de uma fortuna consideravel; tenho posição honrosa e respeitavel na sociedade; mas não poderei jámais ser feliz, se a senhora não consentir em partilhar commigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.

Estas palavras de Alvaro, tão meigas, tão repassadas do mais sincera e profundo amor, que em outras condições terião cahido como balsamo celeste sobre o coração de Isaura a banhal-o em ineffaveis effluvios de ventura, erão agora para ella como um atroz e pungente sarcasmo do destino, um hymno do céo ouvido entre as torturas do inferno. Via de um lado um anjo, que tomando-a pela mão com um suave sorriso mostrava-lhe um eden de delicias, ao qual se esforçava por conduzil-a, emquanto de outro lado a hedionda figura de um demonio atava-lhe ao pé um pesado grilhão, e com todo o seo peso a arrastava para um golphão de eternos soffrimentos.

É que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfianças, durante uma pausa tinha notado os movimentos do infame Martinho, quando encostado ao umbral da saleta com um papel na mão, parecia examinal-a com a mais minuciosa attenção. Aquella vista produzio nella o effeito de um raio; não duvidou mais que estava descoberta, e irremissivelmente perdida para sempre. Subita vertigem lhe escureceo os olhos, pareceo-lhe que o chão lhe faltava debaixo dos pés, e que ia sendo tragada pelas fauces de um abysmo immensuravel. Para não cahir foi-lhe preciso agarrar-se fortemente com ambas as mãos ao braço de Alvaro arrimando-se em seo peito.

--Que tem, minha senhora?--perguntára-lhe este, assustado.--Está incommodada?...

--Algum tanto,--respondeo Elvira com voz desfallecida e arquejante, e reanimando-se pouco a pouco.--Foi uma dor aguda ... uma pontada deste lado ... mas vae passando ... não estou acostumada com este aperto ... o remoinhar da dansa me fez mal.

--Mas ha-de acostumar-se em pouco tempo,--replicou-lhe Alvaro, segurando-lhe uma das mãos e sustendo-a com um braço pela cintura.--A senhora nasceo para brilhar nos salões;... mas, se quer retirar-se....

--Não, senhor; continuemos; já agora estamos na final...

Com estas respostas evasivas Alvaro tranquillizou-se, e em razão dos movimentos rapidos da quadrilha na marca final, que immediatamente seguio-se, não poude notar a extrema palidez e profundo transtorno das feições de Elvira. A infeliz já não dansava, arrastava-se automaticamente pela sala; seo espirito não estava ali, não ouvia nem via outra cousa senão a figura repugnante do Martinho, postada como esphinge ameaçadora junto á porta da saleta, para a qual ella volvia de quando em quando olhos cheios de anciedade e pavor. E o sangue todo lhe refluia ao coração, que lhe tremia como o da pomba que sente estendida sobre o collo a garra desapiedada do gavião.

Em tal estado de susto e perturbação, Isaura não atinava com o que devia responder áquella tão sincera e apaixonada declaração do mancebo. Guardou silencio por alguns instantes, o que Alvaro interpretou por timidez ou emoção.

--Não me quer responder?--continuou com voz meiga,--uma só palavra é bastante....

--Ah! senhor,--murmurou ella suspirando, o que posso eu responder ás doces palavras, que acabo de ouvir de sua boca. Ellas me encantão, mas....

Elvira interrompeo-se bruscamente; um subito estremecimento agitando o braço de Alvaro o fez olhar para ella com sobresalto e inquietação.

--É elle!...--este som sussurrou-lhe pelos labios como um gemido rouco e convulsivo; acabava de avistar Martinho, entrando na sala em que se achavão, e sentio mortal calafrio percorrer-lhe todo o corpo.

--Desculpe-me, senhor;--continuou ella;--não é possivel por hoje ouvir suas doces palavras; sinto-me mal; preciso retirar-me. Se o senhor tivesse a bondade de levar-me onde está meo pae...

--Por que não, D. Elvira?... mas oh!... como está palida!... está soffrendo muito, não é assim?... quer que eu a acompanhe?... que lhe chame um medico?... aqui mesmo os há....

--Obrigada, senhor Alvaro; não se inquiete; isto é um mal passageiro, cansaço talvez; em chegando a casa ficarei boa.

--E quer então retirar-se sem me deixar uma só palavra de consolação e de esperança?...

--De consolação talvez, mas de esperança....

--Por que não?

--Se nem eu mesma posso tel-a...

--Então não me ama....

--Amo-o muito.

--Então será minha...

--Isso é impossivel...

--Impossivel!... que obstaculo pode haver?...

--Não sei dizer-lhe, senhor; minha desgraça.

Esta amorosa confidencia no momento, em que se achava no ponto mais interessante, foi bruscamente interrompida pela presença de Martinho, que se lhes atravessou pela frente, fazendo uma profunda reverencia. Alvaro indignado carregou o sobrôlho, e esteve a ponto de enchotar o importuno, como quem enchota um cão. Elvira estacou como que petrificada de pavor.

--Senhor Alvaro, disse-lhe respeitosamente o Martinho,--com a permissão de Vª. Sª., preciso dizer duas palavras a esta senhora, a quem Vª. Sª. dá o braço.

--A esta senhora!--exclamou maravilhado o cavalheiro.--Que tem o senhor que ver com esta senhora?

--Negocio de summa importancia; ella bem o sabe, melhor do que eu e o senhor.

Alvaro, que bem conhecia o Martinho, e sabia quanto era abjecto e desprezivel, julgando ser aquillo manobra de algum rival invejoso, e covarde, que se servia daquelle miseravel para ultrajal-o ou expôl-o ao ridiculo, teve um assomo de indignação, mas contendo-se por um momento:

--Tem a senhora algum negocio com este homem?--perguntou a Elvira.

--Eu!?... nenhum, por certo; nem mesmo o conheço,--balbuciou a moça, palida e a tremer.

--Mas, meo Deus! D. Elvira, por que treme assim? como está palida!... maldito importuno, que assim a faz soffrer!... oh! pelo céo, D. Elvira, não se assuste assim. Aqui estou eu a seu lado, e ai daquelle, que ousar ultrajar-nos!

--Ninguem quer ultrajal-os, senhor Alvaro;--replicou o Martinho; mas o negocio é mais serio do que o senhor pensa.

--Emfim, senhor Martinho, deixe-se de rodeios e diga-nos aqui mesmo o que quer com esta senhora.

--Posso dizel-o; mas seria melhor que Vª. Sª. o ignorasse.

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