A escrava IsauraPart 21

Part 21

--Que importa!... não se lembra Vª. Sª. de um signal em forma de queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no annuncio? direi, que não se achou semelhante signal, que é muito caracteristico, e está destruida a identidade de pessoa. Accrescentarei mais que a moça, por quem Vª. Sª. se interessa, vista de noite é uma cousa, e de dia é outra; que em nada se parece com a linda escrava que se acha descripta no annuncio, e que em vez de ter vinte annos mostra ter seos trinta e muitos para quarenta, e que toda aquella mocidade e formosura era effeito dos arrebiques, e da luz vacillante dos lustres e candelabros.

--O senhor é bem engenhoso,--observou Alvaro sorrindo-se;--mas os que a virão, nenhum credito darão a tudo isso. Resta porém ainda uma difficuldade, senhor Martinho; é a confissão que ella fez em publico?... isto ha-de ser custoso de embaçar-se.

--Qual custoso!... allega-se que ella é sujeita a accessos de hysterismo, e é sujeita a hallucinações.

--Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua pericia e habilidade. E depois?

--E depois communico tudo isso ao chefe de policia, declaro-lhe que nada mais tenho com esse negocio, passo a procuração a qualquer meirinho, ou capitão do mato, que se queira encarregar dessa diligencia, e em acto continuo escrevo ao senhor da escrava communicando-lhe o meo engano, com o que elle por certo desistirá de procural-a mais por aqui, e levará a outras partes as suas pesquizas. Que tal acha o meo plano?...

--Admiravel, e cumpre não perdermos tempo, senhor Martinho.

--Vou já neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de volta, a dar parte do desempenho de minha commissão.

--Aqui não, que não poderei demorar-me muito. Espero-o em minha casa, e lá receberá a somma convencionada.

--Podem-se retirar,--disse Martinho ao official de justiça e aos guardas, que se achavão postados do lado de fora da porta.--Sua presença não é mais necessaria aqui. Não ha duvida!--continuou elle comsigo mesmo;--isto vae a dobrar como no lansquenet. Esta escrava é uma mina, que me parece não estar ainda esgotada.

E retirou-se esfregando as mãos de contentamento.

--Então, que arranjo fizeste com o homem, meo Alvaro?--perguntou Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.

--Excellente,--respondeo Alvaro;--a minha lembrança surtio o desejado effeito, e ainda mais do que eu esperava.

Alvaro em poucas palavras deo conta ao seo amigo do mercado que fizera com o Martinho.

--Que caracter desprezivel e abjecto o deste Martinho!--exclamou Geraldo.--De um tal instrumento não se pode esperar obra que preste. E julgas ter conseguido muita cousa, Alvaro, com o passo que acabas de dar?...

--Não muito, porém alguma cousa sempre posso conseguir. Pelo menos consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz lá o rifão popular, meo Geraldo, em quanto o páo vae e vem, folgão as costas. Emquanto Leoncio, persuadido que a sua escrava não se acha aqui no Recife, a procura por todo esse mundo, ella aqui fica tranquillamente á minha sombra, livre das perseguições e dos máos tratos de um barbaro senhor; e eu terei tempo para activar os meios de arranjar provas e documentos, que justifiquem o seo direito á liberdade. É quanto me basta por agora; quanto ao resto, já que pareces julgar a minha causa irremissivelmente perdida, a justiça divina me inspirará o modo por que devo proceder.

--Como te enganas, meo pobre Alvaro!... cuidas, que arredando o Martinho ficas por emquanto livre de perseguições e pesquizas contra a tua protegida? que cegueira!... não faltarão malsins igualmente esganados por dinheiro, que pelos cinco contos de réis, que para esses miseraveis é uma somma fabulosa, se ponhão á cata de tão preciosa presa. Agora principalmente, que o Martinho deo a alarma, e que esse negocio tem attingido a um certo gráo de celebridade, em vez de um, apparecerão cem Martinhos no encalce da bella fugitiva, e não terão mais que fazer senão seguir a trilha batida pelo primeiro.

--És muito meticuloso, Geraldo, e encaras as cousas sempre pelo lado peor. É bem provavel que peguem as patranhas inventadas pelo Martinho, e que ninguem mais se lembre de descobrir a captiva Isaura nessa moça, por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem por todos os cantos do mundo, pouco me importará. Sempre obtenho uma dilação, que poderá me ser muito vantajosa.

--Pois bem, Alvaro; vamos que assim aconteça; mas tu não vês que semelhante procedimento não é digno de ti?... que assim incorres realmente nos epithetos affrontosos, com que obsequiou-te o tal Leoncio, e que te tornas verdadeiramente um seductor e acoutador de escravos alheios?...

--Desculpa-me, meo caro Geraldo; não posso acceitar a tua reprimanda. Ella só pode ter applicação aos casos vulgares, e não ás circumstancias especialissimas em que eu e Isaura nos achamos collocados. Eu não dou couto, nem capeio a uma escrava; protejo um anjo, e amparo uma victima innocente contra a sanha de um algôz. Os motivos que me impellem, e as qualidades da pessoa por quem dou estes passos, nobilitão o meo procedimento, e são bastantes para justificar-me aos olhos de minha consciencia.

--Pois bem, Alvaro; faze o que quizeres; não sei que mais possa dizer-te para demover-te de um procedimento, que julgo não só imprudente, como, a fallar-te com sinceridade, ridiculo, e indigno da tua pessoa.

Geraldo não podia dissimular o descontentamento que lhe causava aquella cega paixão, que levava o seo amigo a actos que qualificava de burlesco desatino, e loucura inqualificavel. Por isso longe de auxilial-o com seos conselhos, e indicar-lhe os meios de promover a libertação de Isaura, procurava com todo o empenho demovel-o daquelle proposito, pintando o negocio ainda mais difficil do que realmente o era. De bom grado, se lhe fosse possivel, teria entregado Isaura a seo senhor sómente para livrar Alvaro daquella terrivel tentação, que o ia precipitando na senda das mais ridiculas extravagancias.

Capitulo XVII.

Achando-se só, Alvaro sentou-se junto a uma mesa, e apoiando nella os cotovelos com a fronte entre as mãos, ficou a cismar profundamente.

Isaura porém, presentindo pelo silencio que reinava na sala, que já ali não havião pessoas estranhas, foi ter com elle.

--Senhor Alvaro,--disse ella chegando-se de manso e timidamente;--desculpe-me ... eu venho de certo lhe aborrecer ... queria talvez estar só...

--Não, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contrario és sempre bem vinda junto de mim...

--Mas vejo-o tão triste!... parece-me que aqui entrou mais gente, e alteravão-se vozes. Derão-lhe algum desgosto, meo senhor?...

--Nada houve de extraordinario, Isaura; forão algumas pessoas, que viérão procurar o doutor Geraldo.

--Mas então por que está assim triste e abatido?

--Não estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de arrancar-te do abysmo da escravidão, meo anjo, e elevar-te á posição para que o céo te creou.

--Ah! senhor, não se mortifique assim por amor de uma infeliz, que não merece taes extremos. É inutil luctar contra o destino irremediavel, que me persegue.

--Não falles assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha protecção e o meo amor!...

--Não sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue seo amor em outra mulher que delle seja merecedora, e esqueça-se da pobre captiva, que tornou-se indigna até de sua compaixão occultando-lhe a sua condição, e fazendo-o passar pelo vergonhoso desar de...

--Cala-te, Isaura ... até quando pretendes lembrar-te desse maldito incidente?... eu sómente fui o culpado forçando-te a ir a esse baile, e tinhas razão de sobra para não revelar-me a tua desgraça. Esquece-te disso; eu te peço pelo nosso amor, Isaura.

--Não posso esquecer-me, porque os remorsos me avivão sempre n’alma a lembrança dessa fraqueza. A desgraça é má conselheira, e nos perturba e anuvia o espirito. Eu o amava, assim como o amo ainda, e cada vez mais ... perdoe-me esta declaração, que é sem duvida uma ousadia na boca de uma escrava.

--Falla, Isaura, falla sempre, que me amas. Pudesse eu ouvir de teos labios essa palavra por toda a eternidade.

--Era um triste amor na verdade, um amor de escrava, um amor sem sorriso nem esperanças. Mas a ventura de ser amada pelo senhor era uma idéa tão consoladora para mim! amando-me o senhor me nobilitava a meos proprios olhos, e quasi me fazia esquecer a realidade de minha humilde condição. Eu tremia ao pensar que descobrindo-lhe a verdade, ia perder para sempre essa doce e unica consolação que me restava na vida. Perdoe, meo senhor, perdoe á escrava infeliz, que teve a louca ousadia de amal-o.

--Isaura, deixa-te de vãos escrupulos, e dessas phrases humildes, que de modo nenhum podem caber em teos labios angelicos. Se me amas, eu tambem te amo, por que em tudo te julgo digna do meo amor; que mais queres tu?... Se antes de conhecer a condição em que nasceste, eu te amei subjugado por teos raros encantos, hoje que sei que a tantos attractivos reunes o prestigio do infortunio e do martyrio, eu te adoro, eu te idolatro mais que nunca.

--Ama-me, e é essa idéa, que ainda mais me mortifica!... de que nos serve esse amor, se nem ao menos posso ter a fortuna de ser sua escrava, e devo sem remedio morrer entre as mãos de meo algôz...

--Nunca, Isaura!--exclamou Alvaro com exaltação;--minha fortuna, minha tranquillidade, minha vida, tudo sacrificarei para libertar-te do jugo desse vil tyrano. Se a justiça da terra não me auxilia nesta nobre e generosa empreza, a justiça do céo se fará cumprir por minhas mãos.

--Oh! senhor Alvaro!... não vá sacrificar-se por uma pobre escrava, que não merece taes excessos. Abandone-me á minha sina fatal; já não é pouca felicidade para mim ter merecido o amor de um cavalheiro tão nobre e tão amavel, como o senhor; esta lembrança me servirá de alento e consolação em minha desgraça. Não posso porém consentir, que o senhor avilte o seo nome e a sua reputação, amando com tal extremo a uma escrava.

--Por piedade, Isaura, não me martyrizes mais com essa maldita palavra, que constantemente tens nos labios. Escrava tu!... não o és, nunca o foste, e nunca o serás. Pode acaso a tyrania de um homem ou da sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar á escravidão aquella que das mãos de Deos sahio um anjo digno do respeito e adoração de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar a que o céo te destinou, e conto com a protecção de um Deos justo, por que protejo um dos seos anjos.

Alvaro não obstante ficar sabendo depois da noite do baile, que Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratal-a dahi em diante com o mesmo respeito, defferencia e delicadeza, como a uma donzella da mais distincta jerarquia social. Procedia assim de accordo com os elevados principios que professava, e com os nobres e delicados sentimentos do seo coração. O pudor, a innocencia, o talento, a virtude e o infortunio, erão sempre para elle cousas respeitaveis e sagradas, quer se achassem na pessoa de uma princeza, quer na de uma escrava. Sua affeição era tão casta e pura como a pessoa que della era objecto, e nunca nem de leve lhe passára pelo pensamento abusar da precaria e humilde posição de sua amante, para profanar-lhe a candura immaculada. Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos casta havião feito assomar ao rosto da captiva o rubor do pejo, e nem tão pouco os labios de Alvaro lhe havião roçado o mais leve beijo pelas virginaes e pudicas faces. Apenas depois de instantes e repetidas supplicas de Isaura, havia tomado a liberdade de tratal-a por tu, e isso mesmo quando se achavão a sós.

Sómente agora pela primeira vez, Alvaro, dominado pela mais suave e vehemente emoção, ao proferir as ultimas palavras, enlaçando o braço em torno ao collo de Isaura a cingia brandamente contra o coração.

Estavão ambos enlevados na doçura deste primeiro amplexo de amor, quando o ruido de um carro, que parou á porta do jardim, e logo após um forte e estrondoso--ó de casa!--os fizérão separar-se.

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