A escrava IsauraPart 22
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No mesmo momento entrava na sala o boleeiro de Alvaro, e annunciava-lhe que novas pessoas o procuravão.
--Oh, meo Deos!... que será isto hoje!... serão ainda os malditos esbirros?...--refletio Alvaro, e depois dirigindo-se a Isaura:
--É prudente que te retires, minha amiga,--disse-lhe; ninguem sabe o que será e não convem que te vejão.
--Ah! que eu não sirva senão para perturbar-lhe o socego!--murmurou Isaura retirando-se.
Um momento depois Alvaro vio entrar na sala um elegante e bello mancebo, trajado com todo o primor, e affectando as mais polidas e aristocraticas maneiras; mas apezar de sua belleza, tinha elle na physionomia, como Luzbel, um não sei quê de torvo e sinistro, e um olhar sombrio, que incutia pavor e repulsão.
--Este por certo não é um esbirro,--pensou Alvaro, e indicando uma cadeira ao recemchegado:--Queira sentar-se,--disse-lhe,--e tenha a bondade de dizer o que pretende deste seo criado.
--Desculpe-me,--respondeo-lhe o cavalheiro, passeando um olhar escrutador em roda da sala;--não é a Vª. Sª. que eu desejava fallar, mas sim ao morador desta casa ou a sua filha.
Alvaro estremeceo. Estava claro que aquelle mancebo, se bem que nenhuma apparencia tivesse de um esbirro, andava á pista de Isaura. Todavia no intuito de verificar, se era fundada a sua apprehensão, antes de chamar os donos da casa, quiz sondar as intenções do visitante.
--Não obstante,--respondeo elle,--como estou autorisado pelos donos da casa a tratar de todos os seos negocios, pode Vª. Sª. dirigir-se a mim, e dizer o que delles pretende.
--Sim, senhor; não ponho a menor duvida, pois o que pretendo não é nenhum mysterio. Constando-me com certeza, que aqui se acha acoutada uma escrava fugida por nome Isaura, venho apprehendel-a....
--Nesse caso deve entender-se commigo, que sou o depositario dessa escrava.
--Ah!... pelo que vejo, Vª. Sª. é o senhor Alvaro!...
--Um criado de Vª. Sª.
--Bem; muito estimo encontral-o por aqui; pois saiba tambem que eu sou Leoncio, o legitimo senhor dessa escrava.
Leoncio!... o senhor de Isaura!... Alvaro ficou como esmagado sob o peso desta fulminante e tremenda revelação. Mudo e attonito, contemplou por alguns instantes aquelle homem de sombria catadura, que se lhe apresentava aos olhos, implacavel e sinistro como Lucifer, prestes a empolgar a victima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio porejou-lhe pela testa, e a mais pungente angustia apertou-lhe o coração.
--É elle!... é o proprio algôz!... ai pobre Isaura!...--foi este o écho lugubre, que remurmurou-lhe dentro d’alma enregelada pelo desalento.
Capitulo XVIII.
O leitor provavelmente não terá ficado menos attonito, do que ficou Alvaro, com o imprevisto apparecimento de Leoncio no Recife, e indo bater certo na casa em que se achava refugiada a sua escrava.
É preciso portanto explicar-lhe como isso aconteceo, para que não pense que foi por algum milagre.
Leoncio depois de ter escripto e entregado no correio as duas cartas que conhecemos, uma dirigida a Alvaro, outra a Martinho, nem por isso ficou mais tranquillo. Devorava-lhe a alma uma inquietação mortal, um ciume desesperador. A noticia de que Isaura se achava em poder de um bello e rico mancebo, que a amava loucamente, era para elle um supplicio insupportavel, um cancro, que lhe corroía as entranhas, e o fazia estrebuchar em ancias de desespero, avivando-lhe cada vez mais a paixão furiosa que concebera por sua escrava. Achava-se elle na côrte, para onde, logo que teve noticias de Isaura, se dirigia immediatamente, a fim de se achar em um centro, donde pudesse tomar medidas promptas e energicas para a captura da mesma. Tendo escripto e entregue as cartas na vespera da partida do vapor pela manhã, levou o resto do dia a cismar. A terrivel anciedade em que se achava, não lhe permittia esperar a resposta e o resultado daquellas cartas, sendo muito mais morosas e espaçadas do que hoje as viagens dos paquetes naquella época, em que apenas se havia inaugurado a navegação a vapor pelas costas do Brazil. Demais ocorria-lhe frequentemente ao espirito o anexim popular--quem quer vae, quem não quer manda.--Não podia fiar-se na diligencia e boa vontade de pessoas desconhecidas, que talvez não pudessem luctar vantajosamente contra a influencia de Alvaro, o qual, segundo lho pintavão, era um potentado em sua terra. O ciume e a vingança não gostão de confiar a olhos e mãos alheias a execução de seos designios.
--É indispensavel que eu mesmo vá,--pensou Leoncio, e firme nesta resolução foi ter com o ministro da justiça, com quem cultivava relações de amizade, e pedio-lhe uma carta de recommendação,--o que equivale a uma ordem,--ao chefe de policia de Pernambuco, para que o auxiliasse afficazmente para o descobrimento e captura de uma escrava. Já de antemão Leoncio tambem se havia munido de uma precatoria e mandado de prisão contra Miguel, a quem havia feito processar e pronunciar como ladrão e acoutador de sua escrava. O sanhudo bachá de nada se esquecia para tornar completa a sua vingança.
No outro dia Leoncio seguia para o norte no mesmo vapor que conduzia suas cartas.
Estas porém chegárão ao seo destino algumas horas antes que o seo autor desembarcasse no Recife.
Leoncio apenas pôz pé em terra, dirigio-se ao chefe de policia, e entregando-lhe a carta do ministro inteirou-o de sua pretensão.
--Tenho a informar-lhe, senhor Leoncio,--respondeo-lhe o chefe,--que haverá talvez pouco mais de duas horas que daqui sahio uma pessoa autorisada por Vª. Sª. para o mesmo fim de apprehender essa escrava, e ainda ha pouco aqui chegou de volta declarando que tinha-se enganado, e que acabava de reconhecer que a pessoa, de quem desconfiava, não é e nem pode ser a escrava que fugio a Vª. Sª.
--Um certo Martinho, não, senhor doutor?...--
--Justamente.
--Devéras!... que me diz, senhor doutor?...--
--A verdade; ainda ahi estão á porta o official de justiça e os guardas, que o acompanhárão.
--De maneira, que terei perdido o meo tempo e a minha viagem!... oh! não, não; isto não é possivel. Creia-me, Sr. doutor, aqui ha patranha ... o tal senhor Alvaro dizem que é muito rico...
--E o tal Martinho um valdevino capaz de todas as infamias. Tudo pode ser; mas a Vª. Sª. como interessado, compete averiguar essas cousas.
--E é o que venho disposto a fazer. Irei lá eu mesmo verificar o negocio por meos proprios olhos, e já, se fôr possivel.
--Quando quizer. Ahi estão o official de justiça e os guardas, que ainda agora de lá vierão, e ninguem melhor do que elles pode guiar a Vª. Sª. e effectuar a captura, caso reconheça ser a sua propria escrava.
--Tambem me é preciso que Vª. Sª. ponha o--cumpra-se--nesta precatoria--disse Leoncio apresentando a precatoria contra Miguel--é necessario punir o patife, que teve a audacia de desencaminhar e roubar-me a escrava.
O chefe satisfez sem hesitar ao pedido de Leoncio, que acompanhado da pequena escolta, que fez subir ao seo carro, no mesmo momento se dirigio a casa de Isaura, onde o deixámos em face de Alvaro.
A situação deste não era só critica; era desesperada. O seo antagonista ali estava armado de seo incontestavel direito para humilhal-o, esmagal-o, e o que mais é, despedaçar-lhe a alma, roubando-lhe a amante adorada, o idolo de seo coração, que ia-lhe ser arrancada dos braços para ser prostituida ao amor brutal de um senhor devasso, senão sacrificada ao seo furor. Não tinha remedio senão curvar-se sem murmurar, ao golpe do destino, e ver de braços cruzados mettida em ferros, e entregue ao azorrague do algôz a nobre e angelica creatura, que unica entre tantas bellezas, lhe fizera palpitar o coração em emoções do mais extremoso e puro amor.
Deploravel contingencia, a que somos arrastados em consequencia de uma instituição absurda e deshumana!
O devasso, o libertino, o algôz, apresenta-se altivo e arrogante, tendo a seo favor a lei e a autoridade, o direito e a força, lança a garra sobre a presa, que é objecto de sua cobiça ou de seo odio, e pode fruil-a ou esmagal-a a seo talante, emquanto o homem de nobre coração, de impulsos generosos, inerme perante a lei, ahi fica supplantado, tolhido, manietado sem poder estender o braço em soccorro da innocente e nobre victima, que deseja proteger. Assim, por uma estranha aberração, vemos a lei armando o vicio, e decepando os braços á virtude.
Estava pois Alvaro em presença de Leoncio como o condenado em presença do algôz. A mão da fatalidade o socalcava com todo o seo peso esmagador, sem lhe deixar livre o minimo movimento.
Vinha Leoncio ardendo em furias de raiva e de ciume, e prevalecendo-se de sua vantajosa posição, aproveitou a occasião para vingar-se de seo rival, não com a nobreza de cavalheiro, mas procurando humilhal-o á força de improperios.
--Sei que ha muito tempo,--disse Leoncio, continuando o dialogo que deixámos interrompido no capitulo antecedente,--Vª. Sª. retem essa escrava em seo poder contra toda a justiça, illudindo as autoridades com falsas allegações, que nunca poderá provar. Porém agora venho eu mesmo reclamal-a e burlar os seos planos, e artificios.
--Artificios não, senhor. Protegi e protejo francamente uma escrava contra as violencias de um senhor, que quer tornar-se seo algôz; eis ahi tudo.
--Ah!... agora é que sei que qualquer ahi pode subtrahir um escravo ao dominio de seo senhor a pretexto de protegel-o, e que cada qual tem o direito de velar sobre o modo por que são tratados os escravos alheios.
--Vª. Sª. está de disposição a escarnecer, e eu declaro-lhe que nenhuma vontade tenho de escarnecer, nem de ser escarnecido. Confesso-lhe que desejo muito a liberdade dessa escrava, tanto quanto desejo a minha felicidade, e estou disposto a fazer todos os sacrificios possiveis para conseguil-a. Já lhe offereci dinheiro, e ainda offereço. Dou-lhe o que pedir ... dou-lhe uma fortuna por essa escrava. Abra preço...
--Não ha dinheiro que a pague; nem todo o ouro do mundo, porque não quero vendel-a.
--Mas isso é um capricho barbaro, uma perversidade...
--Seja capricho da qualidade que Vª. Sª. quizer; por ventura não posso ter eu os meos caprichos, comtanto que não offenda direitos de ninguem?... por ventura Vª. Sª. não tem tambem o seo capricho de querel-a para si?... mas o seo capricho offende os meos direitos, e eis ahi o que não posso tolerar.
--Mas o meo capricho é nobre e bemfazejo, e o seo é uma tyrannia, para não dizer uma vilania. Vª. Sª. mancha a sua vida com uma nodoa indelevel conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito e a injuria sobre o tumulo de sua santa mãe, que creou com tanta delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para tornal-a digna da liberdade que pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos de Vª. Sª. Ella por certo lá do céo, onde está, o amaldiçoará, e o mundo inteiro a acompanhará na maldição ao homem, que retem no mais infamante captiveiro uma creatura cheia de virtudes, prendas e belleza...
--Basta senhor!... agora fico tambem sabendo, que uma escrava, só pelo facto de ser bonita e prendada, tem direitos á liberdade. Fique tambem Vª. Sª. sabendo, que se minha mãe não creou essa rapariga para satisfazer aos meos caprichos, muito menos para satisfazer aos de Vª. Sª., a quem nunca conheceo nesta vida. Senhor Alvaro, se deseja ter alguma linda escrava para sua amasia, procure outra, compre-a, que a respeito desta, pode perder toda a esperança.
--Senhor Leoncio, Vª. Sª. de certo esquece-se do lugar onde está, e da pessoa com quem falla, e julga que se acha em sua fazenda fallando aos seos feitores ou a seos escravos. Advirto-lhe, para que mude de linguagem.
--Basta, senhor; deixemo-nos de vãs disputas, e nem eu vim aqui para ser catechisado por Vª. Sª. O que quero é a entrega da escrava e nada mais. Não me obrigue a usar do meo direito levando-a á força.
Alvaro desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeo de todo a prudencia e sangue frio.
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