A escrava IsauraPart 25

Part 25

--Sim, minha filha, não penses mais nesse homem; varre da tua idéa esse amor tresloucado; sou eu quem te peço e te aconselho.

--Por que, meo pae?... como poderei ser ingrata a esse moço?...

--Mas não deves contar mais com elle, e muito menos com o seo amor.

--Por que motivo? por ventura se terá elle esquecido de mim?...

--Tua humilde condição não permitte que olhes com amor para tão alto personagem; um abysmo te separa delle. O amor que lhe inspiraste, não passou de um capricho de momento, de uma fantasia de fidalgo. Bem me peza dizer-te isto, Isaura; mas é a pura verdade.

--Ah! meo pae! que está dizendo!... se soubesse que mal me fazem essas terriveis palavras!... deixe-me ao menos a consolação de acreditar que elle me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha elle em illudir uma pobre escrava?...

--Eu bem quizéra poupar-te ainda este desgosto; mas é preciso que saibas tudo. Esse moço ... ah! minha filha, prepara teo coração para mais um golpe bem cruel.

--Que tem esse moço?... perguntou Isaura trémula e agitada. Falle, meo pae; acaso morreo?...

--Não, minha filha, mas ... está casado.

--Casado!... Alvaro casado!... oh! não; não é possivel!... quem lhe disse, meo pae?...

--Elle mesmo, Isaura; lê esta carta.

Isaura tomou a carta com mão trémula e convulsa, e a percorreo com olhos desvairados. Lida a carta não articulou uma queixa, não soltou um soluço, não derramou uma lagrima, e ella palida como um cadaver, os olhos estatelados, a boca entre-aberta, muda, immovel, hirta, ali ficou por largo tempo na mesma posição; dir-se-hia que fôra petrificada como a mulher de Loth, ao encarar as chammas em que ardia a cidade maldita. Emfim por um movimento rapido e convulso atirou-se ao seio de seo pae, e inundou-o de uma torrente de lagrimas.

Este pranto copioso alliviou-a; ergueo a cabeça, enxugou as lagrimas, e pareceo ter recobrado a tranquillidade, mas uma tranquillidade gelida, sinistra, sepulchral. Parecia que sua alma se tinha anniquilado sob a violencia daquelle golpe esmagador, e que de Isaura só restava o phantasma.

--Estou morta, meo pae!... não sou mais que um cadaver;... fação de mim o que quiserem....

Forão estas as ultimas palavras, que com voz funebre e sumida proferio naquelle lobrego recinto.

--Vamos, minha filha, disse Miguel beijando-a na fronte.--Não te entregues assim ao desalento; tenho esperança, de que has-de viver e ser feliz.

Miguel, espirito acanhado e rasteiro, coração bom e sensivel, mas inteiramente estranho ás grandes paixões, não podia comprehender todo o alcance do sacrificio que impunha á sua filha. Encarando a felicidade mais pelo lado dos interesses da vida positiva e material, que não pelos gozos e exigencias do coração, ousava conceber sinceras esperanças de mais felizes e tranquillos dias para sua filha, e não via que, sujeitando-a a semelhante opprobrio, aviltando-lhe a alma, ia esmagar-lhe o coração. Queria que ella vivesse, e não via que aquelle ignominioso consorcio, depois de tantas e tão acerbas torturas por que passára, era o golpe de compaixão, que terminando-lhe a existencia, vinha abreviar-lhe os soffrimentos.

Malvina achava-se no salão, e ali esperava o resultado da conferencia, que Miguel fôra ter com sua filha. Rosa e André de braços cruzados junto á porta da entrada, tambem ali se achavão ás suas ordens.

Malvina sentio um doloroso aperto de coração ao ver assomar na porta o vulto de Isaura, arrimada ao braço de Miguel, livida e desfigurada como enferma em agonia, os cabellos em desalinho, e com passos mal seguros penetrar, como um duende evocado do sepulchro, naquelle salão, onde não ha muito tempo a vira tão radiante de belleza e mocidade; naquelle salão, que parecia ainda repetir os ultimos accentos de sua voz suave e melodiosa.

Mesmo assim ainda era bella a misera captiva. A magreza fazendo sobresahirem os contornos e angulos faciaes, realçava a pureza ideal e a severa energia daquelle typo antigo.

Os grandes olhos pretos cobertos de luz baça e melancolica, erão como cirios funereos sob a arcada sombria de uma capella tumular. Os cabellos entornados em desordem em volta do collo, fazião ondular por elle leves sombras de maravilhoso effeito, como festões de hera a se debruçarem pelo marmore vetusto de estatua empallidecida pelo tempo. Naquella miseranda situação, Isaura offerecia ao esculptor um formoso modelo da Niobe antiga.

--Aquella é Isaura!... oh! meo Deos! coitada!--murmurou Malvina ao vel-a, e foi-lhe mister enxugar duas lagrimas, que a seo pezar humedecerão-lhe as palpebras. Esteve a ponto de ir implorar clemencia a seo esposo em favor da pobresinha, mas lembrou-se das perversas inclinações e máo comportamento, que Leoncio aleivosamente attribuira a Isaura, e assentou de revestir-se de toda a impassibilidade, que lhe fosse possivel.

--Então, Isaura,--disse Malvina com brandura,--já tomaste a tua resolução?... estás decidida a casar com o marido que te queremos dar?

Isaura por unica resposta abaixou a cabeça e fitou os olhos no chão.

--Sim, senhora,--respondeo Miguel por ella;--Isaura está resolvida a se conformar com a vontade de V^{as}. S^{as}.

--Faz muito bem. Não é possivel, que ella esteja a soffrer por mais tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir emquanto estiver nesta casa. Não foi para esse fim, que sua defunta senhora creou-a com tanto mimo, e deo-lhe tão boa educação.

Isaura, apezar de tua descahida, quero-te bem ainda, e não tolerarei mais semelhante escandalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um excellente marido.

--Excellente!... meo Deos! Que escarneo!--reflectio Isaura.

--Belchior é muito bom moço, inoffensivo, pacifico e trabalhador; creio que has-de dar-te optimamente com elle. Demais para obter a liberdade nenhum sacrificio é grande, não é assim, Isaura?

--Sem duvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me humildemente ao meo destino. Arrancão-me da marmorra--(continuou Isaura em seo pensamento)--para levarem-me ao supplicio.

--Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga docil e de juizo. André, vae chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o gosto de annunciar-lhe, que vae emfim realizar-se o seo sonho querido de tantos annos.

Creio que o senhor Miguel tambem não ficará mal satisfeito com o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma cousa sahir do captiveiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto desejo o teo bem, quero ser madrinha neste casamento, que vae pôr termo a teos soffrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento, que ha muito tempo della andavão arredados.

Ditas estas palavras, Malvina abrio um cofre de joias, que estava sobre uma mesa, e delle tirou um rico collar de ouro, que foi collocar no pescoço de Isaura.

--Acceita isto Isaura,--disse ella,--é o meo presente de noivado.

--Agradecida, minha boa senhora,--disse Isaura, e acrescentou em seo coração;--é a corda, que o carrasco vem lançar ao pescoço da victima.

Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.

--Eis-me aqui, senhora minha,--diz elle,--o que deseja deste seo menor creado?

--Dar-lhe os parabens, senhor Belchior,--respondeo Malvina.

--Parabens!... mas eu não sei por que!...

--Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vae ser livre, e ... adivinhe o resto.

--E vae-se embora de certo ... oh!... é uma desgraça!

--Já vejo, que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a casar-se com o senhor.

--Que me diz, patrôa!... perdão, não posso acreditar. Vm.^{ce} está zombando commigo.

--Digo-lhe a verdade; ahi está ella, que não me deixará mentir. Aprompte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que ámanhã mesmo ha-de-se fazer o casamento aqui mesmo em casa.

--Oh! senhora minha! divindade da terra!--exclamou Belchior indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijal-os,--deixe-me beijar esses péis....

--Levante-se dahi, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que deve agradecer.

Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.

--Oh! princeza de meo coração!--exclamou elle atracando-se ás pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quasi foi a terra com a força daquella furiosa e enthusiastica atracação. Era para fazer rebentar de riso, a quem não soubesse quanto havia de tragico e doloroso no fundo daquella impia e ignobil farça.

--Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teos péis este teo menor captivo Belchior!... olha para elle, para este teo adorador, que hoje é mais do que um principe ... dá cá essa mãosinha, deixa-me comel-a de beijos...

--Meo Deos! que farça hedionda obrigão-me a representar!--murmurou Isaura comsigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que collando a ella a boca no transporte do enthusiasmo, desatou a chorar como uma creança.

--Olha que palerma!--disse André para Rosa, que observavão de parte aquella scena tragi-comica.--E venhão cá dizer-me, que não é o mel para a boca do asno!

--Eu antes queria que me casassem com um jacaré.

--Este meo sinhô moço tem idéas do diabo! quem havia de lembrar-se de casar uma sereia com um bôto.

--Invejoso!... você é que queria ser o bôto, por isso está ahi a torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era que o nhonhô te désse de dote á Isaura.

--Isso queria eu!... aposto que Isaura não vae casar de livre vontade! e depois ... nós cá nos arranjariamos ... havia de enfiar o bôto pelo fundo de uma agulha.

--Sahe dahi, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...

--Não te arrebites, minha Rosa; já agora não ha remedio senão contentar-me comtigo, que em fim de contas tambem és bem bonitinha, e ... tudo que cahe no jequy, é peixe.

--É baixo!... aguente a sua taboa, e vá consolar-se com quem quizer, menos commigo.

Capitulo XXI.

--Então, Leoncio,--dizia Malvina a seo esposo no outro dia pela manhã,--déste as providencias necessarias para arranjar-se esse negocio hoje mesmo?

--Creio que é a centesima vez que me fazes essa pergunta, Malvina,--respondeo Leoncio sorrindo-se;--todavia pela centesima vez te responderei tambem, que as providencias que estão da minha parte, já forão todas dadas. Hontem mesmo mandei um proprio a Campos, e não tardarão a chegar por ahi o tabellião para passar escriptura de liberdade a Isaura com toda a solemnidade, e tambem o padre para celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de estar todos promptos; e tu, Malvina, manda já preparar a capella para se effectuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor,--accrescentou sorrindo,--do que desejaste o teo proprio.

Malvina sahio do salão, deixando Leoncio em companhia de um terceiro personagem, que tambem ali se achava, por nome Jorge, a quem o leitor ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda não temos dito tudo.

Este genero contém muitas variedades, e mesmo cada individuo tem sua côr e feição particular. Era um homem bem apessoado, espirituoso, serviçal, cheio de cortezia e amabilidade, condições indispensaveis a um bom parasita. Jorge não vivia da seiva e da sombra de uma só arvore; saltava de uma a outra, e assim peregrinava por longas distancias, o que era da sua parte um excellente calculo, pois proporcionava-lhe uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que tornava sua companhia menos incommoda e fatigante aos seos numerosos amigos. Conhecia e entretinha relações de amizade com todos os fazendeiros das margens do Parahyba desde S. João da Barra até S. Fidelis. A crer no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e dando andamento a mil negocios importantes, mas estava sempre prompto a prescindir delles a convite de qualquer desses amigos para passar uns oito ou quinze dias em sua companhia.

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