A escrava IsauraPart 7

Part 7

--Mas elle consente?... perguntou Isaura apontando para Leoncio.

--O negocio não é com elle, é com seo pae, a quem agora escreve.

--Nesse caso tenho alguma esperança; mas se minha sorte depender sómente daquelle homem, serei para sempre escrava.

--Arre! com mil diabos!... resmungou comsigo Leoncio levantando-se, e dando sobre a mesa um furioso murro com o punho fechado.--Não sei que volta hei-de dar para desmanchar esta inqualificavel loucura de meo pae!

--Já escreveste, Leoncio?--perguntou Malvina voltando-se para dentro.

Antes que Leoncio pudesse responder a esta pergunta, um pajem, entrando rapidamente pela sala, entrega-lhe uma carta tarjada de preto.

--De luto!... meo Deos!... que será!--exclamou Leoncio, palido e trémulo, abrindo a carta, e depois de a ter percorrido rapidamente com os olhos lançou-se sobre uma cadeira, soluçando e levando o lenço aos olhos.

--Leoncio! Leoncio!... que tem?... exclamou Malvina palida de susto; e tomando a carta que Leoncio atirára sobre a mesa, começou a ler com voz entre-cortada:

«Leoncio, tenho a dar-te uma dolorosa noticia, para a qual teo coração não podia estar preparado. É um golpe, pelo qual todos nós temos de passar inevitavelmente, e que deves suportar com resignação. Teo pae já não existe; sucumbio ante-hontem subitamente, victima de uma congestão cerebral...»

Malvina não poude continuar; e nesse momento esquecendo-se das injurias e de tudo que lhe havia acontecido naquelle nefasto dia, lançou-se sobre seo marido, e abraçando-se com elle estreitamente, misturáva suas lagrimas com as delle.

--Ah! meo pae! meo pae!... tudo está perdido!--exclamou Isaura, pendendo a linda e pura fronte sobre o peito de Miguel.--Já nenhuma esperança nos resta!...

--Quem sabe, minha filha!--replicou gravemente o pae.--Não desanimemos; grande é o poder de Deus!...

Capitulo VII.

Na fazenda de Leoncio havia um grande salão toscamente construido, sem forro nem soalho, destinado ao trabalho das escravas, que se occupavão em fiar e tecer lã e algodão.

Os moveis deste lugar consistião em tripeças, tamboretes, bancos, rodas de fiar, dobadouras, e um grande tear collocado a um canto.

Ao longo do salão defronte de largas janellas guarnecidas de balaústres, que davão para um vasto pateo interior, via-se postada uma fila de fiandeiras. Erão de vinte a trinta negras, creoulas e mulatas, com suas tenras crias ao collo ou pelo chão a brincarem em derredor dellas. Umas conversavão, outras cantarolavão para encurtarem as longas horas de seo fastidioso trabalho. Vião-se ali caras de todas as idades, cores e feitios, desde a velha africana, trombuda e macilenta, até á roliça e luzidia crioula, desde a negra brunida como azeviche até á mulata quasi branca.

Entre estas ultimas distinguia-se uma rapariguinha a mais faceira e gentil que se pode imaginar nesse genero. Esbelta e flexivel de corpo, tinha o rostinho mimoso, labios um tanto grossos, mas bem modelados, voluptuosos, humidos, e vermelhos como boninas, que acabão de desabrochar em manhã de abril. Os olhos negros não erão muito grandes, mas tinhão uma viveza e travessura encantadora. Os cabellos negros e annelados, podião estar bem na cabeça da mais branca fidalga de além-mar. Ella porém os trazia curtos e mui bem frisados á maneira dos homens. Isto longe de tirar-lhe a graça, dava á sua physionomia zombeteira e espevitada um chiste original e encantador. Se não fossem os brinquinhos de ouro, que lhe tremião nas pequenas e bem molduradas orelhas, e os turgidos e offegantes seios que como dois trêfegos cabritinhos lhe pulavão por baixo de transparente camisa, tomal-a-hieis por um rapazete maroto e petulante. Veremos em breve de que ralé era esta creança, que tinha o bonito nome de Rosa.

No meio do sussurro das rodas, que giravão, das monotonas cantarólas das fiandeiras, do compassado estrepito do tear, que trabalhava incessantemente, dos guinchos e alaridos das creanças, quem prestasse attento ouvido, escutaria a seguinte conversação, travada timidamente e a meia voz em um grupo de fiandeiras, entre as quaes se achava Rosa.

--Minhas camaradas,--dizia a suas vizinhas uma creoula idosa, matreira e sabida em todos os mysterios da casa desde os tempos dos senhores velhos,--agora que sinhô velho morreo, e que sinhá Malvina foi-se embora para a casa de seo pae della, é que nós vamos ver o que é rigor de captiveiro.

--Como assim, tia Joaquina!?...

--Como assim!... vocês verão. Vocês bem sabem, que sinhô velho não era de brinquedo; pois sim; lá diz o ditado = atrás de mim virá quem bom me fará =. Este sinhô moço Leoncio ... hum!... Deos queira que me engane ... quer-me parecer que vae-nos fazer ficar com saudade do tempo de sinhô velho...

--Cruz! ave Maria!... não falla assim, tia Joaquina!... então é melhor matar a gente uma vez...

--Este não quer saber de fiados nem de tecidos, não; e daqui a pouco nós tudo vae p’ra roça puxar enxada de sol a sol, ou p’ra o cafesal apanhar café, e o pirahy do feitor ahi rente atrás de nós. Vocês verão. Elle o que quer é café, e mais café, que é o que dá dinheiro.

--Tambem a dizer a verdade, não sei o que será melhor,--observou outra escrava,--se estar na roça trabalhando de enxada, ou aqui pregada na roda, desde que amanhece até nove, dez horas da noite. Quer-me parecer, que lá ao menos a gente fica mais á vontade.

--Mais á vontade?!... que esperança!--exclamou uma terceira--Antes aqui mil vezes! aqui ao menos a gente sempre está livre do maldito feitor.

--Qual, minha gente!--ponderou a velha creoula,--tudo é captiveiro. Quem teve a desgraça de nascer captivo de um máo senhor, dê por aqui, dê por acolá, ha-de penar sempre. Captiveiro é má sina; não foi Deos que botou no mundo semelhante cousa, não; foi invenção do diabo. Não vê o que aconteceo co’a pobre Juliana, mãe de Isaura?...

--Por fallar nisso,--atalhou uma das fiandeiras,--o que fica fazendo agora a Isaura?... em quanto sinhá Malvina estava ahi, ella andava de estadão na sala, agora...

--Agora fica fazendo as vezes de sinhá Malvina,--acudio Rosa com seo sorriso maligno e zombeteiro.

--Cala a boca, menina!--bradou com voz severa a velha creoula.--Deixa dessas fallas. Coitada da Isaura! Deos te livre a você de estar na pelle daquella pobresinha! se vocês soubessem, quanto penou a pobre da mãe della! ah! aquelle sinhô velho foi um homem judeo mesmo, Deos te perdoe. Agora com Isaura e sinhô Leoncio a cousa vai tomando o mesmo rumo. Juliana era uma mulata bonita e sacudida; era da côr desta Rosa, mas inda mais bonita e mais bem feita....

Rosa deo um muchocho, e fez um momo desdenhoso.

--Mas isso mesmo foi a perdição dela, coitada!--continuou a creoula velha.--O ponto foi sinhô velho gostar della ... eu já contei a vocês o que é que aconteceo. Juliana era uma rapariga de brio, e por isso teve de penar, até morrer. Nesse tempo o feitor era esse siô Miguel, que anda ahi, e que é pai de Isaura. Isso é que era feitor bom!... todo mundo queria elle bem, e tudo andava direito. Mas esse siô Francisco, que ahi anda agora, cruz nelle!... é a peor peste que tem botado os pés nesta casa. Mas, como ia dizendo, o siô Miguel gostava muito de Juliana, e trabalhou, trabalhou até ajuntar dinheiro para forrar ella. Mas nhonhô não esteve por isso, ficou muito zangado, e tocou o feitor para fora.

Tambem Juliana pouco durou; perahy e serviço deo co’ela na cova em pouco tempo. Ficou ahi a pobre menina ainda de mama, e se não fosse sinhá velha, que era uma santa mulher, Deos sabe o que seria della!... tambem, coitada!... antes Deos a tivesse levado!...

--Por que, tia Joaquina?...

--Por que está-me parecendo, que ella vae ter a mesma sina da mãe...

--E o que mais merece aquella impostora?--murmurou a invejosa e malevola Rosa.--Pensa, que por estar servindo na sala é melhor do que as outras, e não faz caso de ninguem. Deo agora em namorar os moços brancos, e como o pae diz que ha-de forrar ella, pensa que e uma grande senhora. Pobre do senhor Miguel!... não tem onde cahir morto, e ha-de ter para forrar a filha!

--Que má lingua é esta Rosa!--murmurou enfadada a velha creoula, relanceando um olhar de reprehensão sobre a mulata.--Que mal te fez a pobre Isaura, aquella pomba sem fel, que com ser o que é, bonita e civilisada como qualquer moça branca, não é capaz de fazer pouco caso de ninguem?... Se você se pilhasse no lugar della, pachóla e atrevida como és, havias de ser mil vezes peór.

Rosa mordeo os beiços de despeito, e ia responder com todo o atrevimento e desgarre, que lhe era proprio, quando uma voz aspera e atroadora, que partindo da porta do salão retumbou por todo elle, veio pôr termo á conversação das fiandeiras.

--Silencio!--bradava aquella voz.--Arre! que tagarelice!... parece que aqui só se trabalha de lingua!...

Um homem espadaúdo e quadrado, de barba espessa e negra, de physionomia dura e repulsiva, apresenta-se á porta do salão, e vae entrando. Era o feitor. Acompanhava-o um mulato ainda novo, esbelto e aperaltado, trajando uma bonita libré de pajem, e conduzindo uma roda de fiar. Logo após elles entrou Isaura.

As escravas todas levantárão-se e tomárão a benção ao feitor. Este mandou collocar a roda em um espaço desoccupado, que infelizmente para Isaura ficava ao pé de Rosa.

--Anda cá, rapariga;--disse o feitor voltando-se para Isaura.--De hoje em diante é aqui o teo lugar; esta roda te pertence, e tuas parceiras que te dêm tarefa para hoje. Bem vejo, que te não ha-de agradar muito a mudança; mas que volta se lhe ha-de dar?... teo senhor assim o quer. Anda lá; olha, que isto não é piano, não; é acabar depressa com a tarefa para pegar em outra. Pouca conversa e muito trabalhar...

Sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova occupação, que lhe davão, Isaura foi sentar-se junto á roda, e pôz-se a preparal-a para dar começo ao trabalho. Posto que creada na sala, e empregada quasi sempre em trabalhos delicados, todavia era ella habil em todo o genero de serviço domestico: sabia fiar, tecer, lavar, engomar, e cosinhar tão bem ou melhor do que qualquer outra. Foi pois collocar-se com toda a satisfação e desembaraço entre as suas parceiras; apenas notava-se no sorriso, que lhe adejava nos labios, certa expressão de melancolica resignação; mas isso era o reflexo das inquietações e angustias, que lhe opprimião o coração, que não desgosto por se ver degradada do posto que occupára toda sua vida junto de suas senhoras. Conscia de sua condição Isaura procurava ser humilde como qualquer outra escrava, por que a despeito de sua rara belleza e dos dotes de seo espirito, os fumos da vaidade não lhe entumecião o coração, nem turvavão-lhe a luz de seo natural bom senso. Não obstante porém toda essa modestia e humildade transluzia-lhe, mesmo a despeito della, no olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo, proveniente talvez da consciencia de sua superioridade, e ella sem o querer sobresahia entre as outras, bella e donosa, pela correcção e nobreza dos traços physionomicos e por certa distincção nos gestos e ademanes. Ninguem diria que era uma escrava, que trabalhava entre as companheiras, e a tomaria antes por uma senhora moça, que por desenfado fiava entre as escravas. Parecia a garça real, alçando o collo garboso e altaneiro, entre uma chusma de passaros vulgares.

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