A escrava IsauraPart 10

Part 10

Todavia emquanto Malvina se conservava em casa, era sempre uma salva-guarda, uma sombra protectora, que amparava Isaura contra as importunações e brutaes tentativas de Leoncio. Por menor que fosse o respeito, que lhe tinha o marido, ella não deixava de ser um poderoso estorvo ao menos contra os actos de violencia, que quizesse pôr em pratica para conseguir seos execrandos fins. Isaura ponderava isso tudo, e é custoso fazer-se idéa do estado de terror e desfallecimento em que ficou aquella pobre alma quando vio partir sua senhora, deixando-a inteiramente ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos e barbaros caprichos daquelle, que era seo senhor, amante e algôz ao mesmo tempo.

De feito Leoncio mal vio sumir-se a esposa por trás da ultima collina, não podendo conter mais a expansão de seo satanico jubilo, tratou logo de pôr o tempo em proveito, e pôz-se a percorrer toda a casa em procura de Isaura. Foi emfim deparar com ella no escuro recanto de uma alcova, estendida por terra quasi exanime, banhada em pranto, e arrancando do peito soluços convulsivos.

Poupemos ao leitor a narração da scena vergonhosa, que ahi se deo. Contentemo-nos com dizer, que Leoncio esgotou todos os meios brandos e suasivos ao seo alcance para convencer a rapariga, que era do interesse e dever della render-se a seos desejos. Fez as mais esplendidas promessas, e os mais solemnes protestos; abaixou-se até ás mais humildes supplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de cuja boca não ouvio senão palavras amargas, e terriveis exprobrações; e vendo emfim que eram infructiferos todos esses meios, retirou-se cheio de cólera, vomitando as mais tremendas ameaças.

Para dar a essas ameaças começo de execução, nesse mesmo dia mandou pôl-a trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixámos no capitulo antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça para o tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o tumulo, se teimasse em sua resistencia ás ordens de seo senhor.

Capitulo IX.

Leoncio impaciente e com o coração ardendo nas chammas de uma paixão febril e delirante, não podia resignar-se a adiar por mais tempo a satisfação de seos libidinosos desejos. Vagando daqui para ali por toda a casa, como quem dava ordens para reformar o serviço domestico, que dahi em diante ia correr todo por sua conta, não fazia mais do que espreitar todos os movimentos de Isaura, procurando occasião de achal-a a sós para insistir de novo e com mais força em suas abominaveis pretenções. De uma janella vio as escravas fiandeiras atravessarem o pateo para irem jantar, e notou a ausencia de Isaura.

--Bom!... vae tudo ás mil maravilhas! murmurou Leoncio com satisfação; nesse momento passava-lhe pela mente a feliz lembrança de mandar um feitor levar as outras escravas para o cafesal, ficando elle quasi a sós com Isaura no meio daquelles vastos e desertos edificios.

Dir-me-hão, que sendo Isaura uma escrava, Leoncio, para achar-se a sós com ella não precisava de semelhantes subterfugios, e nada mais tinha a fazer do que mandal-a trazer á sua presença por bem ou por mal. De certo elle assim podia proceder, mas não sei que prestigio tem, mesmo em uma escrava, a belleza unida á nobreza da alma, e á superioridade da inteligencia, que impõe respeito aos entes ainda os mais perversos e corrompidos. Por isso Leoncio, a despeito de todo o seo cynismo e obcecação, não podia eximir-se de render no fundo d’alma certa homenagem á belleza e virtudes daquella escrava excepcional, e de tratal-a com mais alguma delicadeza do que ás outras.

--Isaura,--disse Leoncio, continuando o dialogo que deixámos apenas encetado,--fica sabendo, que agora a tua sorte está inteiramente entre as minhas mãos.

--Sempre esteve, senhor,--respondeo humildemente Isaura.

--Agora mais que nunca. Meo pae é fallecido, e não ignoras que sou eu o seo unico herdeiro. Malvina por motivos, que sem duvida terás adivinhado, acaba de abandonar-me, e retirou-se para a casa de seo pae. Sou eu pois, que hoje unicamente governo nesta casa, e disponho do destino. Mas tambem, Isaura, de tua vontade unicamente depende a tua felicidade ou a tua perdição.

--De minha vontade!... oh! não, senhor; minha sorte depende unicamente da vontade de meo senhor.

--E eu bem desejo--replicou Leoncio com a mais terna inflexão de voz,--com todas as forças de minha alma, tornar-te a mais feliz das creaturas; mas como, se me recusas obstinadamente a felicidade, que tu, só tu me poderias dar?....

--Eu, senhor?! oh! por quem é, deixe a humilde escrava em seo lugar; lembre-se da senhora D. Malvina, que é tão formosa, tão boa, e que tanto lhe quer bem. É em nome della que lhe peço, meo senhor; deixe de abaixar seos olhos para uma pobre captiva, que em tudo está prompta para lhe obedecer, menos nisso, que o senhor exige...

--Escuta, Isaura; és muito creança, e não sabes dar ás cousas o devido peso. Um dia, e talvez já tarde, te arrependerás de ter rejeitado o meu amor.

--Nunca!--exclamou Isaura.--Eu cometteria uma traição infame para com minha senhora, se désse ouvidos ás palavras amorosas de meo senhor.

--Escrupulos de creança!... escuta ainda, Isaura. Minha mãe vendo a tua linda figura e a viveza de teo espirito,--talvez por não ter filha alguma,--desvelou-se em dar-te uma educação, como teria dado a uma filha querida. Ella amava-te extremosamente, e se não deo-te a liberdade foi com o receio de perder-te; foi para conservar-te sempre junto de si. Se ella assim procedia por amor, como posso eu largar-te de mão, eu que te amo com outra sorte de amor muito mais ardente e exaltado, um amor sem limites, um amor que me levará á loucura ou ao suicidio, se não ... mas que estou a dizer!... Meo pae,--Deos lhe perdoe,--levado por uma sordida avareza, queria vender tua liberdade por um punhado de ouro, como se houvesse ouro no mundo que valesse os inestimaveis encantos, de que os céos te dotárão. Profanação!... eu repelliria como quem repelle um insulto, todo aquelle que ousasse vir offerecer-me dinheiro pela tua liberdade. Livre és tu, por que Deos não podia formar um ente tão perfeito para votal-o á escravidão.

Livre és tu, por que assim o queria minha mãe, e assim o quero eu. Mas, Isaura, o meo amor por ti é immenso; eu não posso, eu não devo abandonar-te ao mundo. Eu morreria de dor, se me visse forçado a largar mão da joia inestimavel, que o céo parece ter-me destinado, e que eu ha tanto tempo rodeio dos mais ardentes anhélos de minha alma...

--Perdão, senhor; eu não posso comprehendel-o; diz-me que sou livre, e não permite que eu vá para onde quizer, e nem ao menos que eu disponha livremente de meu coração?!

--Isaura, se o quizeres, não serás sómente livre; serás a senhora, a deosa desta casa. Tuas ordens, quaesquer que sejão, os teos menores caprichos serão ponctualmente cumpridos; e eu, melhor do que faria o mais terno e o mais leal dos amantes, te cercarei de todos os cuidados e carinhos, de todas as adorações, que sabe inspirar o mais ardente e inextinguivel amor. Malvina me abandona!... tanto melhor! em que dependo eu della e de seo amor, se te possuo! Quebrem-se de uma vez para sempre esses laços urdidos pelo interesse! esqueça-se para sempre de mim, que eu nos braços de minha Isaura encontrarei sobeja ventura para poder lembrar-me della.

--O que o senhor acaba de dizer, me horroriza. Como se pode esquecer e abandonar ao desprezo uma mulher tão amante e carinhosa, tão cheia de encantos e virtudes, como sinhá Malvina? Meo senhor, perdoe-me se lhe fallo com franqueza; abandonar uma mulher bonita, fiel e virtuosa por amor de uma pobre escrava, seria a mais feia das ingratidões...

A tão severa e esmagadora exprobração, Leoncio sentio revoltar-se o seo orgulho.

--Cala-te, escrava insolente!--bradou cheio de cólera.--Que eu supporte sem irritar-me os teos desdens e repulsas, ainda vá; mas reprehensões!... com quem pensas tu, que fallas?...

--Perdão! senhor!... exclamou Isaura atterrada e arrependida das palavras que lhe tinhão escapado.

--E entretanto, se te mostrasses mais branda commigo ... mas não, é muito aviltar-me diante de uma escrava; que necessidade tenho eu de pedir aquillo, que de direito me pertence? Lembra-te, escrava ingrata e rebelde, que em corpo e alma me pertences, a mim só e a mais ninguem. És propriedade minha; um vaso, que tenho entre as minhas mãos, e que posso usar delle ou despedaçal-o a meo sabor.

--Pode despedaçal-o, meo senhor; bem o sei; mas por piedade não queira usar delle para fins impuros e vergonhosos. A escrava tambem tem coração, e não é dado ao senhor querer governar os seos affectos.

--Affectos!... quem falla aqui em affectos?! Podes acaso dispor delles?...

--Não por certo, meo senhor; o coração é livre; ninguem póde escravizal-o, nem o proprio dono.

--Todo o teo ser é escravo; teo coração obedecerá, e se não cedes de bom grado, tenho por mim o direito e a força ... mas para que? para te possuir não vale a pena empregar esses meios extremos. Os instinctos do teo coração são rasteiros e abjectos como a tua condição; para te satisfazer far-te-hei mulher do mais vil, do mais hediondo de meus negros.

--Ah! senhor! bem sei de quanto é capaz. Foi assim que seo pae fez morrer de desgostos e máos tratos a minha pobre mãe; já vejo que me é destinada a mesma sorte. Mas fique certo, de que não me faltarão nem os meios nem a coragem para ficar para sempre livre do senhor e do mundo.

--Oh!--exclamou Leoncio com satanico sorriso,--já chegaste a tão subido gráo de exaltação e romantismo!... isto em uma escrava não deixa de ser curioso. Eis o proveito, que se tira de dar educação a taes creaturas! bem mostras, que és uma escrava, que vives de tocar piano e ler romances. Ainda bem que me preveniste; eu saberei gelar a ebullição desse cerebro escaldado. Escrava rebelde e insensata, não terás mãos nem pés para pôr em pratica teos sinistros intentos. Ó lá, André,--bradou elle e apitou com força no cabo do seo chicote.

--Senhor!--bradou de longe o pajem, e um instante depois estava em presença de Leoncio.

--André,--disse-lhe este com voz secca e breve--traze-me já aqui um tronco de pés e algemas com cadeado.

--Virgem santa!--murmurou comsigo André espantado.--Para que será tudo isto?... ah! pobre Isaura!...

--Ah! meo senhor, por piedade!--exclamou Isaura, caindo de joelhos aos pés de Leoncio, e levantando as mãos ao céo em contorções de angustia; pelas cinzas ainda quentes de seo pae, ha poucos dias fallecido, pela alma de sua mãe, que tanto lhe queria, não martyrize a sua infeliz escrava. Acabrunhe-me de trabalhos, condene-me ao serviço o mais grosseiro e pesado, que a tudo me sujeitarei sem murmurar; mas o que o senhor exige de mim, não posso, não devo fazel-o, embora deva morrer.

--Bem me custa tratar-te assim, mas tu mesma me obrigas a este excesso. Bem vês, que me não convem por modo nenhum perder uma escrava como tu és.

Talvez ainda um dia me serás grata por ter-te impedido de matar-te a ti mesma.

--Será o mesmo!--bradou Isaura levantando-se altiva, e com o accento rouco e trémulo da desesperação,--não me matarei por minhas proprias mãos, mas morrerei ás mãos de um carrasco.

Neste momento chega André trazendo o tronco e as algemas, que deposita sobre um banco, e retira-se imediatamente.

Ao ver aquelles barbaros e aviltantes instrumentos de supplicio turvárão-se os olhos a Isaura, o coração se lhe enregelou de pavor, as pernas lhe desfallecerão, cahio de joelhos e debruçando-se sobre o tamborete, em que fiava, desatou uma torrente de lagrimas.

--Alma de minha sinhá velha!--exclamou com voz entre-cortada de soluços,--valei-me nestes apuros; valei-me lá do céo, onde estais, como me valieis cá na terra.

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