Ex-esposaPart 28

Parte 28

“O prefácio desta carta é—estou tão embriagada quanto nunca estive. Primeira vez em um ano. Nat e eu caímos do vagão com o mais estrondoso splash imaginável—aquela sua conhecida, Tony, que há tanto tempo tem o ‘prazer’ não correspondido por mim, causou isso.

“Nat me telefonou para me pedir para jantar às sete, (Você sabe que ele anda tendo um ataque de querer-fugir-de-tudo-isso há meses. Pobre criança.) Às dez para as sete a campainha tocou. Era aquele idiota do Tony. Seu cabelo amarelo estava penteado para quatro lados ao mesmo tempo, como sempre; e ele estava bêbado como sempre, também. Ele tinha um frasco, e eu bebi um gole. Então Nat chegou. Ele estava apertado, também, o que é extraordinário. Parece que ele tinha acabado de acompanhar seu pai em um de seus ataques. Então todos nós bebemos mais.

“Fomos ao bar do Delano, e começamos a beber Manhattans. Uma violenta tempestade de chuva se formou lá fora, e não havia táxis, então bebemos mais, e os barmen nos cozinharam ovos e outras coisas.

“Eu estava me sentindo para baixo, porque estava cansada—e Tony e Nat são uma combinação medonha, embora pareçam sair juntos com frequência. Quero dizer, é provável que Nat fique sombrio, e Tony amoroso, simultaneamente.

“Os dois ficaram mais e mais apertados com suas bebidas.

“Então Tony disse para Nat: ‘Você é o rapaz com quem Pat vai se casar no fim, claro. Um dia ela vai se olhar no espelho e saber que não vai ser uma aparentemente-sofisticada-de-vinte-e-dois-anos eternamente. Então ela vai se casar com você, e vai fazer de você um ótimo marido, essa é a parte engraçada. Vou te mandar um presente de casamento.’

“Eu disse: ‘Não quero me casar com ninguém.’

“Tony disse: ‘Você vai criar juízo algum dia.’

“Bebemos mais duas rodadas de drinques, e eu falei sobre o Edifício Paramount.

“Então Tony disse: ‘Eu vou “conquistar” a Pat, um dia . . . não por uns dois anos, um dia quando ela estiver cansada.’

“Nat disse: ‘Uma ova que vai. Eu vou me casar com ela algum dia quando ela estiver cansada. Você tem razão . . . ela deveria se casar . . . mulheres precisam de estabilidade . . . não me importa como ela se ocupa nesse meio-tempo.’

“Eu disse: ‘Parem de falar de mim como se eu fosse um carro que precisa ser estacionado em algum lugar no final. Se querem saber, estou perfeitamente feliz no momento.’

“Eles disseram, em coro: ‘Claro, mas ele nunca vai poder se casar com você.’

“Eu disse: ‘Falem de outra coisa, por favor.’

“Está tudo bem, Noel, eu provavelmente não escreveria para você sobre isso, se eu mesma não estivesse apertada. Foi uma noite bem repugnante— mas não extraordinária. Somos uma geração sem modos. O homem mais bem criado que você conhece é provável que a qualquer momento comece a gritar suas ambições sexuais num bar clandestino. Isso não significa nada.

“Isto significa algo, porém. É damnadamente verdade que eu algum dia vou me olhar no espelho, e saber que—não no vestido escarlate que usei hoje à noite, nem em qualquer outro, vou parecer ter vinte e dois anos, nunca mais. E vou desejar ter estabilidade, ou seja, um marido para pagar por massagens faciais durante toda a minha meia-idade. Mas não vou aceitar um marido desses. Seria um desperdício grande demais de você e de mim e de sonhos e de amor.

“Estou pedindo algo a você, porém. Provavelmente não pediria se estivesse sóbria. Porque o pensamento de envelhecer, sozinha, me assusta, você me escreveria uma carta e diria: ‘Eu me casaria com você se pudesse.’ Eu sei que você nunca vai poder . . . mas ter um bilhete de duas linhas que dissesse que você teria se casado comigo, se as coisas fossem diferentes, me consolaria.

“Seu carinho por mim é a coisa mais adorável que já encontrei, você sabe, num mundo cheio de soluções de segunda categoria para tudo, e eu preferiria ter a remota chance de permanência com você, do que dezenove certidões de casamento em molduras douradas com qualquer outra pessoa. Você consegue entender, porém, que um bilhete de duas linhas seria consolador, porque foi uma noite repugnante?”

Ele me escreveu uma longa carta. Procurei entre as outras cartas que ele tinha me escrito. Li, e deixei de lado. Essa seria a única carta que eu guardaria, porque eu não acreditava que o calor pudesse algum dia sair dela. Terminava: “A coisa que todos os homens procuram, eu encontrei, com você.”


Recuperei-me daquele humor de ansiar-por-ser-esposa.

Noel e eu saíamos pelas noites de outubro, e éramos tão felizes quanto sempre tínhamos sido—mais felizes, pois ficávamos cada vez mais à vontade um com o outro, e mais próximos um do outro na compreensão. Ele dizia que estávamos ficando como os dois filósofos antigos que se sentavam, contentes, e escutavam um ao outro pensar.


Um dia, eu estava me preparando para sair do escritório, e pensando que teria tempo de ir à academia por uma hora antes de ir para casa me arrumar para jantar com Noel, quando minha pequena secretária-assistente entrou e disse que uma senhora queria me ver.

“Quem é, Doris?”

“Ela não quis dar o nome. Disse que era pessoal. Achei que você pudesse conhecê-la. Ela tem um tapa-olho preto cobrindo todo o lado esquerdo do rosto.”

“Ah”, eu disse, “Mande-a entrar, Doris. . . . E você pode ir para casa. Não vou precisar de você de novo hoje à noite.”


Houve um instante em que pensei: “Eu deveria ter me recusado a vê-la—ela nunca foi real para mim, enquanto eu não a via.” Mas eu sabia que não teria podido mandá-la embora, de verdade. Eu não teria feito isso, com Noel.

Eu disse: “Como vai. Não quer se sentar?”

Ela disse: “Sou a esposa do Noel. Há algum tempo venho querendo falar com você.” Ela se sentou na poltrona ao lado da minha escrivaninha.

A luz do abajur de parede em frente caiu sobre ela. Era uma mulher bastante alta—com uma figura que poderia ter sido boa, se ela tivesse escolhido as roupas com cuidado. Usava aquele tipo de tweed bom, de campo, que as mulheres selecionam pela praticidade, pela durabilidade, sem referência às nuances do estilo.

Sob seu chapéu esportivo de feltro marrom, cabelo dourado despontava, com um efeito de desleixo, que poderia, um dia, ter sido um efeito de esplendor. Sobre o lado esquerdo do rosto—um tapa-olho preto ocultava o que havia por baixo, da aba do chapéu ao queixo. O lado direito do rosto era composto de um grande olho, de azul-violeta, uma graciosa sobrancelha castanha, pele branca clara e metade de uma boca que um dia, obviamente, os homens que a conheciam diziam ser “botão de rosa”.

Bem, eu deveria saber que o gosto de Noel era bom. Noiva de guerra casada às pressas, ela poderia ter sido—ela devia ter sido um composto de creme e rosas então.

Ela disse: “Sinto que isto é uma intromissão e que eu deveria me desculpar. Algo aconteceu que torna isso necessário.”

Sim, era uma voz bem-educada. Curiosamente informe, porém, como a voz de uma menina muito jovem.

“Não há problema. Tenho tanta admiração por Noel que estou encantada de conhecer a esposa dele.”

(Ser civilizado significa que a gente mantém as palavras desconectadas dos pensamentos, quando necessário.)

Ela disse: “Vai ser mais fácil para mim—não estou acostumada a falar com pessoas—se você me deixar dizer o que tenho a dizer—primeiro.”

Eu disse: “Como quiser.”

“Normalmente não gosto do Noel. Se você tivesse dirigido, quando tinha vinte anos, com um homem que ficou bêbado, e destruiu o carro, e o seu rosto, de modo que você andasse por aí como uma aleijada, pelo resto da sua vida, você não gostaria dele.”

Eu disse: “Talvez não.”

Ela disse: “Tive semanas e meses e anos para pensar. Não tive nada mais para fazer, desde o verão de 1919. Às vezes acho que arruinei a vida do Noel. Mas ele acabou com a minha.”

Eu disse: “Sem dúvida é verdade. Conheci ele anos depois de tudo isso. Pode me dizer o que isso tem a ver comigo?”

“Sim”, ela disse, “estou chegando a tudo isso. Admitindo que eu amava outra pessoa, quando Noel voltou da guerra. Ele acabou com isso para mim, também.”

Eu disse: “Sim, claro.”

“Ele é a única pessoa que ainda conheço”, ela disse, “que segue adiante no mundo onde as coisas acontecem. . . . Minha irmã é uma solteirona cansada.”

“Entendi isso, um pouco”, eu disse. “Você deve ter ouvido bastante sobre Noel e eu. Nunca tentei tomar o que você manteve.”

“Eu sei”, ela disse, “não tenho nada contra você. Eu costumava brigar com Noel, porque ele conhecia mulheres mais jovens, bonitas, enquanto nem um homem neste lado do inferno vai olhar para mim, de novo. Mas me conformei com isso. Só que—agora é diferente.”

“Por quê?” eu disse.

“Porque Noel e eu vamos ter um bebê, em sete meses mais ou menos.”

Eu me agarrei à borda da minha escrivaninha. Os cantos afiados cortaram minhas mãos. A esposa do Noel tornou-se parte de um quadro—as paredes do escritório e o teto—e a vista das luzes de Manhattan lá fora. O quadro girava, e girava, loucamente.

Eu disse a mim mesma: “Você teve um privilégio raro, Patricia. Você foi A Esposa, e A Outra Mulher. Você jogou bola nos dois lados dessa rede, e teve o privilégio de perder nos dois. Essa é uma experiência rara.”

Eu disse a mim mesma: “Isto acaba com você, Patricia . . . aquela esposa que era uma vaga figura fantástica nos arredores da vida dele—agora é dona dele para todo o sempre. Pobre Noel, pobre Noel—ele nunca vai a Yokohama, ele nunca pode deixar Nova York. Ele vai viver e morrer onde está, amarrado àquela figura meio mascarada, e o bebê de cabelo ruivo que eu queria, essa mulher vai ter.”

Eu disse a mim mesma: “Não, a gente não enlouquece, a gente não grita—a gente lembra que os anos ensinaram algo. Mas o quê, afinal de contas, eles ensinaram? Ah, sim, eu lembro—que todas as coisas passam—que todas as coisas passam.”

Eu disse: “Você está contente que você e Noel vão ter um bebê?”

A esposa do Noel disse: “Sim. Ele costumava falar em ter um—dez ou onze anos atrás, quando ele me amava. Depois do meu acidente nunca quis um, por anos, porque achava que uma criança ficaria assustada com um rosto como o meu—e eu não queria um bebê que tivesse medo de mim. Mas—neste último ano mais ou menos” (este último ano mais ou menos—todo o tempo em que eu conhecia Noel), “pensei que um bebê não se importaria, se eu fosse boa para ele. Quis um por um ano—não aconteceu antes.”

Eu disse: “Acho muito bom para você.”

Ela disse: “Vim vê-la, porque sei que você é a amante de Noel. Não precisei dele, nem o quis, muitas vezes, todos esses anos. Não tinha nada sobre o que falar com ele. Mas agora, eu o quero como o pai do meu filho.”

(Deus—era uma frase que usavam nas legendas dos filmes.)

“Não contei a Noel”, continuou aquela voz informe, de menina. “Quis vê-la primeiro. Quis pedir que você pare de vê-lo. Pretendo morar num subúrbio perto de Nova York agora, e que ele more comigo, ou pelo menos venha me ver dia sim, dia não—para que ele se afeiçoe ao filho. . . . Noel costumava querer um filho, quando éramos jovens . . . Espero que este filho seja um menino. . . . E estou pedindo que você faça isso, porque você é uma mulher jovem e bonita. . . . Haverá outros homens para você. Eu só tenho Noel . . . e este filho, que me dará algo por que viver.”

Consegui dizer: “Entendo como você deve se sentir a respeito.”

(Ela me havia chamado de “amante” de Noel. Palavra feia, “amante”. Ele e eu tínhamos nos amado tanto . . . Noel iria querer um filho . . . ele havia querido um meu . . . Noel envelhecer, ficar preso para sempre . . . acabar numa mesa de revisão de jornal, quando estivesse cansado—e acabado. Noel era honrado. Eu tinha amado tanto isso nele. Noel ficaria com sua esposa desfigurada . . . que estava grávida.)

Eu disse: “Tive um filho uma vez, lembro-me. Ele morreu.”

Algo de animação, de simpatia, até, agitou-se naquele meio rosto. Ela disse: “Sinto muito. Era menino ou menina? Que idade teria?”

Eu disse: “Era um filho. Esqueço que idade teria. Quase quatro, acho.”

Ela disse: “Bem, você vai desistir de Noel, para que eu possa tê-lo como pai do meu filho? . . . Algumas semanas atrás ele quis ir para a Ásia . . . Eu não tinha certeza sobre isso então. . . . Ele não se importará de não ir para a Ásia, agora.”

Pensei: “Como ela conhece pouco Noel, hoje em dia.”

Olhei para fora, para o horizonte escuro de Nova York, com as luzes de outros escritórios, brilhando. Perguntei-me o que as pessoas, sentadas naqueles escritórios, depois do expediente, estariam discutindo. Pensei: “Isto acaba comigo . . . mas acaba com Noel, para sempre, e ele é uma pessoa mais valiosa do que eu.”

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