Ex-esposaPart 29

Parte 29

Ela disse: “Não me culpe, Patricia... posso chamá-la de Patricia? Sempre ouvi falar de você, assim. Eu afastei Noel da Ásia... mas pense nas coisas das quais a direção descuidada dele daquele automóvel me afastou, ao longo de nove anos... E vou tentar compensá-lo tendo um filho.”

Eu disse: “Estou pensando.” E uma ideia curiosíssima me veio... e me aqueceu, a mim que sentira por dez minutos como se nada na vida pudesse me aquecer de novo.

E pensei: “Sim — se eu conseguir fazer isso.” (E quando, em algum bar clandestino, alguém que não gosta de mim disser: ‘A propósito, Patricia, o que aconteceu com seu belo namorado ruivo?’, vou responder: ‘Ah, você não soube? Eu dei o fora nele — e o continente da Ásia.’ Não vou dar essa resposta, porém. Se eu conseguir fazer isso, nunca contarei a ninguém, exceto talvez a Lucia... e a Helena.)

Eu disse: “Por que você não faz as malas e vai para a Ásia com Noel? Começar a vida de novo, com seu filho?”

Ela disse: “Vou lhe mostrar.” Tirou a máscara preta do rosto. Olhei. Havia uma mancha vermelha sem vista, onde antes havia contornos que os homens — Noel, sem dúvida — dez anos antes achavam desejáveis de beijar. Havia um horror congelado... Todo o ódio, ou ressentimento, que eu tivera contra aquela mulher, morreu. Se eu tivesse sofrido aquilo, que tipo de mulher eu teria sido, depois?

Ela cobriu aquela cicatriz vermelha retorcida que fora metade de um rosto. Ouvi sua voz, dizendo: “Se você fosse eu, viajaria entre estranhos, com isto?”

Na verdade, não senti pena dela. Não se sente pena do destino, quando ele se interpõe entre a gente e o que mais queríamos no mundo.

Eu disse “Não” a princípio. “Eu não viajaria.” Depois pensei em Noel... que amava a beleza das mulheres, e a beleza de lugares estranhos, e eu disse: “Não, mas — há coisas que você poderia fazer.”

“O quê?”, ela disse. “Depois da guerra, fui a vários cirurgiões faciais. Não puderam fazer nada por mim... Não sobrou o suficiente para reconstruir.”

Então, de repente, ela começou a chorar, do seu único olho violeta-azul. E eu disse: “Não chore. Estou pensando em você — e em Noel, que eu amei tanto. Você não se importa de me ouvir dizer que amei tanto o Noel.”

Ela disse: “Não. Ele é, de certo modo, um bom homem. Não me lembro exatamente de tê-lo amado. Eu tinha só dezenove anos, veja bem. Mas, tanto quanto ele podia ser, foi bom para mim ao longo desses anos. Muitas vezes fui amarga — e o culpei. Suponho que ninguém teve culpa.”

Pensei: “E não há vilões na peça. Eu já sabia disso. Se existe um Deus, entre coisas tão mal administradas — se existe Um, que Ele por favor se lembre de que, nisto, fiz o melhor que pude. Por causa de um bebê... um bebê com longos cílios escuros que se curvavam sobre sua pele branca... um bebê que morreu há muito tempo... e por causa de Noel, que curou tudo o que me machucara... e que me achava uma mulher generosa, nisto farei o melhor que posso.”

Eu lhe disse: “Noel quer ir para a Ásia. Você vai com ele. Se você ficar por aqui, não prometo me manter fora da vida dele. Não sei se consigo. Se você for, você o tem para sempre... e ele tem o trabalho que quer.”

Ela começou a falar. Eu disse: “Espere um minuto... tenho uma amiga... uma pintora... uma moça que pinta máscaras... máscaras teatrais, na maioria. Mas ela fez três para uma moça que ia para o Sul — uma moça com uma pele especialmente delicada que não suportava queimadura de sol — e essa moça as usava o tempo todo, ao ar livre, durante o dia. Vou pedir a essa pintora que faça algumas máscaras para você. Não são máscaras óbvias, a quatro metros e meio de distância. E você pode dizer às pessoas que conhecer viajando que você — machucou — o rosto recentemente, e está apenas usando uma máscara até melhorar.”

Era terrível, ver o que despertava naquela metade de um rosto branco e frio. “Você está falando sério?”, ela disse. “Você quer dizer que eu poderia ir e ver a Costa, e embarcar num navio para o Japão, e não ser apontada, e as pessoas não se arrepiarem e virarem o rosto?... Minha irmã é tão cansativa; seria um alívio tão grande ver lugares novos. E você não acha que Noel teria vergonha de mim?”

(Eu disse a mim mesma: “Já que você tem que fazer isso, Patricia, faça com grandeza. Torça para que isso possa ser algum consolo para você — ao longo de todos os anos em que nada mais será grande consolo.)

“Seu nome é Beatrice, não é?”, eu disse. “Vou chamá-la de Beatrice — se você não atrapalhar a carreira de Noel, ele vai acabar gostando muito de você, tenho certeza. E ele vai amar o bebê... Vou levá-la para ver a Helena, agora. Ela é a moça que faz as máscaras. Ela deve terminá-las para você em uma semana ou mais. Então você poderia vir à cidade de novo, para experimentá-las — e, se você quiser, eu a levo a várias casas elegantes de vestuário por atacado — onde você pode comprar quantidades de coisas para viajar.

“Você tem uma figura adorável — e, depois que o bebê nascer, você pode usar essas coisas no Oriente... Em muitos lugares você pode achar interessante usar um véu, como se fosse uma mulher maometana. Deixe seu cabelo louro aparecer, e todos acharão o efeito o mais picante possível.”

Ela estava tremendo de excitação. “Você faz parecer tão real.” Ela disse. “Gosto de você. Pensei que fosse odiá-la. Acho que sinto muito... por estar tirando Noel de você.”

Anos de prática em leviandade eram um muro contra minhas costas. “Ah, não se preocupe com isso”, eu disse. “Vou superar. Já superei muitas coisas, em última análise.”

Telefonei para Helena: “Tenho um trabalho urgente para você... a cliente é uma amiga minha... são máscaras... explico em detalhe quando a vir... Posso trazê-la agora?”

Ela disse: “Claro. Por que sua voz soa tão estranha? A Lucia está aqui, de visita. Quer que eu diga a ela para esperar?”

Eu disse: “Pelo amor de Deus, diga, Helena. Não vou demorar mais de quinze minutos.”

“Vamos”, eu disse para a esposa de Noel.

No táxi, a caminho da casa de Helena, ela disse: “Ela vai ter que olhar meu rosto?”

“Você não vai se importar, Beatrice. É como se ela fosse uma cirurgiã. Ela só vai querer saber as proporções.”

Quando subimos as escadas até o apartamento de Helena, pensei em diversas outras vezes em que as subira — sentindo-me feliz, sentindo-me triste, sentindo-me cansada. Agora, pelo menos no momento, eu não sentia — nada.

Lucia estava sentada, muito decorativa, num vestido marrom quente e peles, no pequeno sofá. Helena estava terminando um desenho de moda. As duas olharam para mim com atenção. Eu disse: “Esta é a esposa de Noel... vocês duas conheceram Noel... Ele vai aceitar o emprego em Yokohama que mencionei a vocês, e Beatrice vai com ele... Ela sofreu um acidente, há muito tempo... E ela quer que Helena faça algumas máscaras para ela, para que não fique constrangida viajando.”

Lucia disse: “Ora, essa é uma ideia maravilhosa. As máscaras da Helena são tão decorativas.”

Helena disse: “Eu adoraria fazer meia dúzia de máscaras para ela... combinar os tons da pele com o cabelo magnífico dela. Ela tem o cabelo mais bonito que vi em anos.”

Beatrice hesitou um momento, e então tirou o chapéu. O cabelo dela era lindo. Ela o arrumava mal, mas eu poderia levá-la a um cabeleireiro na próxima vez que viesse à cidade.

Atravessei a sala e deixei meu casaco e chapéu no divã de Helena.

“Que vestido violeta lindo você tem, Pat”, disse Lucia do outro lado da sala.

Helena me seguiu, sem que fosse óbvio. “Tem uma garrafa de uísque debaixo do lavatório no banheiro”, ela disse, em voz baixa. “Pelo amor de Deus, vá tomar uns dois drinques. Você parece que vai desmaiar.”

“Qual é o primeiro nome da esposa de Noel, Pat?”, ela perguntou em voz alta. “Sempre chamo minhas modelos pelo primeiro nome.”

Eu disse: “Beatrice.”

“Beatrice”, disse Helena, “quero fazer um molde do seu rosto... não vai demorar... Você tem tempo?”

“Sim... Meu trem só sai às oito e meia.”

“Vou deixá-las por cinco minutos”, eu disse.

Lucia me seguiu até o banheiro. Minhas mãos tremiam quando comecei a servir o uísque. Lucia tirou a garrafa de mim e me serviu um drinque grande.

Ela acendeu dois cigarros; me deu um, e não disse nada, até eu terminar o uísque.

Então: “Você está se comportando muito bem, Pat, mas o que é tudo isso?”

“A esposa de Noel vai lhe dar um filho”, eu disse. “Ele sempre quis um. Não é um mundo extraordinário?”

Lucia pôs os braços em volta dos meus ombros, e por um instante terrível eu me agarrei a ela... tentando não soluçar, para que os soluços não fossem ouvidos na sala ao lado.

“Firmeza”, disse Lucia. Lembrei que ela, ou outra pessoa, tinha me dito isso há muito tempo.

“Está tudo bem”, eu disse. “Noel e eu conseguimos durar um ano.”

“Deus”, disse Lucia, para o chuveiro e o arsenal de loções faciais de Helena. “Há certas mulheres, sob o sistema atual, que deveriam ganhar a vida jogando cartas profissionalmente. Certamente não têm sorte no amor.”

Eu ri.

Lucia disse: “Você está mais sábia do que era... poderia aguentar, desta vez, e ele a amaria por um tempo e depois a odiaria... porque você ficaria entre ele e seu conceito de si mesmo como uma pessoa decente... Repito, que você está se comportando bem.”

Eu tinha passado creme frio no rosto. Agora estava pondo rouge. Eu disse: “Bem, duvido que isso me dê muita satisfação nos anos em que Noel tiver a Ásia para consolá-lo... Não sei, porém. Nunca tentei antes... mas talvez a única satisfação em qualquer coisa, no fim, seja a consciência de ter se comportado bem.”

Lucia disse: “Os vitorianos expressavam isso como ‘cumprir o próprio dever conforme o entendia’.”

Eu disse: “Alguns dos deveres que entendemos deixariam um vitoriano de olhos cruzados.” Arrumei meu batom, como se achasse o efeito importante.

“A propósito, Noel sabe como vocês decidiram o destino dele entre vocês?”

“Diabos, não. Beatrice planeja contar a ele no fim de semana — mas eu vou contar a ele, no jantar, hoje à noite.”

Lucia pôs um pouco de pó desnecessário no nariz adorável.

“É melhor passar o fim de semana com Sam e comigo, Pat.”

“Está bem”, eu disse. “Obrigada.”

“Preciso sair”, ela disse. “A mulher do Noel vai começar a suspeitar de uma conferência. Vejo por que você está fazendo isso, Patricia. Quaisquer inferninhos que você e eu tenhamos visitado — aquela garota viveu num inferno grande.”

“Eu sei”, eu disse.

Lucia me beijou, talvez pela segunda vez desde que nos conhecíamos. “Há algo que eu possa fazer por você, criança, antes de ir?”, ela perguntou.

“Sim, pare numa farmácia e telefone para o Noel. Diga a ele que vou encontrá-lo no Dante’s às dez para jantar, e que ele não deve passar para me buscar. Vou ter tempo justo de me arrumar, depois de colocá-la no trem.”

Lucia pôs a mão na porta, e então se virou de volta para mim. “Patricia, falo isso a sério. . . . A maioria das coisas tem que chegar a um fim. Você sabe disso, a essa altura, tão bem quanto eu. Minha opinião sincera é que você e o Noel poderiam ter chegado a um fim muito pior do que este . . .”

Eu disse: “Obrigada, Lucia. Te vejo no fim de semana.” E limpei o pó das minhas sobrancelhas.

Helena vinha administrando Beatrice com destreza. . . . Era uma mulher excitada, quase feliz, a que eu coloquei no trem.

Ela tagarelava. Ela disse: “Aquela garota Helena diz que vai me fazer máscaras para usar na luz do sol, e na chuva, e na luz elétrica — e até no luar. Ela é muito gentil . . . Não me interessava por nada há anos. . . . E você não se importa com o Noel, se importa? Quero dizer, você vai encontrar um sucessor para ele . . . você é tão bonita. Alguma vez alguém te disse que você tinha um rosto espiritual?”

Eu pensei: “Ficou espiritual por atravessar uma boa quantidade de camas, primeiro e por último. . . . Não, o Noel fez isso por ele, se é que é espiritual.”

Eu disse: “Há homens para os quais se encontram substitutos, mas não sucessores. Mas não se preocupe com isso. . . . Você pense em ver o Fujiyama, sabe, a montanha sempre coberta de neve do Japão?”

Ela disse: “Espero que você veja um dia, você mesma.” Eu não me importei — eu era a primeira mulher que ela tinha tido a chance de tratar com condescendência em dez anos, provavelmente.

Fui para casa, e me arrumei, e jantei com o Noel.

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