Ex-esposaPart 25
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Ele riu. “Querida, sei exatamente como você se sente. Se você batesse os pés neste momento e me amaldiçoasse com sotaque do Bowery, eu poderia vê-la sair da minha vida e ficaria contente de vê-la desaparecer. Mas você fica aí sentada, encantadora... Curioso como é angustiante ser qualquer coisa menos frívolo. Se eu dissesse, com a voz embargada, ‘Adeus para sempre, meu jovem amor querido’, eu me sentiria um imbecil. No entanto, quero lhe dizer algo bonito.”
Nós dois rimos — e Peter atravessou o jardim, encostou a cabeça nos meus joelhos e passou os braços em volta deles.
“Patricia, fico contente por ter me casado com você quando era jovem. Não teria querido perder isso por nada.”
Eu disse: “Peter, meu querido, que você vá para o inferno por me fazer chorar. Também fico contente por ter me casado com você quando era jovem. E sinto muito por cada coisa estúpida que fiz e que magoou você.” Lágrimas escorreram pelo meu rosto e pingaram na nuca dele, de forma absurda. Ele me deu um lenço e um cigarro, e perguntou se eu queria outra bebida.
“Não, acho que quero ir para casa, Peter; e sozinha.”
“Está bem. Você acreditaria que não estou tentando ser desagradável, se eu lhe dissesse que espero nunca mais vê-la?”
Eu conseguia entender aquilo. Disse: “Você vai gostar bastante de mim, se nunca me vir por cinco minutos.”
“É isso... Você me beija, com indiferença, Patricia, antes de ir?”
Beijei-o com indiferença. Ele inclinou a cabeça e encostou o rosto no meu, suavemente. Era um gesto dele que antes me era familiar. Doeu. Eu queria, mais do que quisera qualquer coisa em anos, encontrar palavras para dizer a Peter o quanto eu o amara um dia, e o quanto sentia não amá-lo agora.
Ele beijou minhas pálpebras, minha boca e minha garganta. Acendeu um cigarro e caminhou uma vez de um lado para o outro no jardim. Depois disse: “Patricia, você vai ficar aqui comigo esta noite?”
Eu queria tanto — querer ficar. Queria sentir, por uma hora, que amava Peter. Não conseguia sentir absolutamente nada.
Eu disse: “Seria apenas fingir; e eu provavelmente choraria, porque já não era real; e isso deixaria você irritado.”
“Sim, e eu a trataria da forma mais ultrajante possível pela manhã, suponho. Não conseguiria evitar.”
“Eu sei. É melhor me arranjar um táxi, Peter. Vou para casa.”
Ele foi procurar um táxi. Quando voltou, disse: “Pelo amor de Deus, pense em algo frívolo para o seu discurso de despedida, querida. Eu já pensei no meu.”
Passei pó no rosto, ao luar. “Está bem. Diga o seu primeiro, Peter.”
“Eu deixei você. Agora você está me deixando. Então você vence a última batalha.”
“Isso não é muito engraçado, Peter.”
“Provavelmente não.”
Fomos do jardim, atravessando o apartamento escurecido dele, até a porta da rua. Antes de abri-la, ele disse: “Qual é a sua fala de saída?”
Eu disse: “E agora, Senhor, deixai o vosso servo partir em paz.”
“Não é melhor que a minha”, ele disse.
“Eu sei. É o melhor que consigo, no entanto, Pete.”
O táxi esperava lá fora. Ele deu meu endereço ao motorista.
Ele disse: “Bem, Patricia, obrigado por jantar comigo.”
“Gostei”, eu disse.
No dia seguinte Helena voltou do Canadá, e ela e eu fomos às compras de roupas de outono juntas. O gerente de publicidade voltou de seu colapso e eu tirei férias.
Na primeira noite depois que voltei a Nova York, eu estava sentada sozinha, lendo uma acumulação de cartas de Lucia, quando o telefone tocou.
Uma voz disse: “Depois que deixei as Black Hills, tive que substituir alguém no nosso Bureau de Washington. Cheguei a Nova York vinte minutos atrás. É tarde demais para lhe pedir que vá a algum lugar dançar? Passei toda a viagem desde Washington discutindo os republicanos que querem concorrer contra Smith no ano que vem, e quero ouvir música.”
Eu disse: “Olá, Noel. Claro que vou dançar. Em quanto tempo você me pega?”
“Meia hora”, ele disse.
XVI
Aquela conversa telefônica com Noel foi em setembro de 1927.
Numa tarde de novembro de 1928, eu estava tomando chá e comendo muffins com ele, diante da lareira.
Os republicanos haviam lançado Hoover contra Al Smith, e os americanos à moda antiga que se preocupavam com a possibilidade de Al convidar o Papa para o café da manhã de domingo na Casa Branca voltaram a dormir à noite.
Quando terminamos o chá, Noel vestiu o sobretudo. Ele disse: “Volto em umas duas horas. Tenho dois ou três ‘adeuses’ rápidos para dizer a algumas pessoas. Depois vamos jantar onde você quiser.”
“Você terminou de fazer as malas, não terminou?”, perguntei.
“Sim. Quando levar os papéis da escrivaninha para o meu cofre no banco, não se esqueça de levar junto aquela caixa de lata na estante. Tem todas as suas cartas dentro. Quando eu voltar, vou precisar delas para consolar meus anos de declínio.”
Sorrimos um para o outro. “Você se importa se eu guardar suas cartas para mim no mesmo cofre, querido querido”, eu disse. “É o mais perto que provavelmente chegaremos de compartilhar o mesmo túmulo.”
“Não faça isso, Patricia”, ele disse. Não estava falando das cartas.
“Desculpe, Noel. Está tudo bem. Afinal, tivemos muito mais do que a maioria das pessoas jamais sonha em ter.”
“Sente-se perto do fogo, até eu voltar, Pat — e dê uma olhada nas suas cartas. Elas não vão entristecê-la.”
(Querido Noel — ele sabia que as cartas me lembrariam das noites alegres que tínhamos compartilhado, e era o melhor que ele podia fazer por mim, naquele momento.)
Ele reconsiderou, pouco antes de sair. “Não sei”, ele disse. “Talvez seja melhor você ler o ‘Mercury’.”
“Não”, eu disse. “Quero descobrir se alguma vez consegui lhe escrever que você era a pessoa mais gentil do mundo.”
Ele foi dizer “adeus” às pessoas, e eu preparei chá fresco para mim. Antes de olhar minhas cartas para Noel, subi e peguei as dele numa gaveta da minha penteadeira. Noel e eu tínhamos apartamentos na mesma casa havia quase um ano.
Minha sugestão de guardar as cartas dele junto com as minhas foi feita por impulso, mas eu senti que era bastante sensata. Não queria destruir as cartas dele — nem queria mantê-las por perto para ler e reler quando estivesse solitária — para descobrir, possivelmente, a cada releitura, um pouco de calor que se fora delas.
Eu tinha vinte e sete anos. Mais de mil dias apinhados se interpunham entre mim e aquela mulher mais jovem que acreditava não poder viver sem Peter. Quando, raramente, agora, eu me lembrava do Peter que conhecera, pensava nele com bondade, como alguém com quem eu compartilhara uma pós-adolescência dolorosa, alguém que sem dúvida estivera tão desnorteado quanto eu em relação à maioria das coisas. Ele e eu nos casamos, tivemos um filho e nos separamos, antes que qualquer um de nós crescesse.
Eu vivera o suficiente para descobrir que depois do Primeiro Amor a gente pode amar de novo — tanto quanto — mais, porque a gente sabe mais. Eu acreditava que amaria Noel para sempre, talvez. Mas também sabia que podia viver sem Noel; e que, conforme o Tempo me mudasse, eu nem sequer sentiria sua falta, com frequência, ou muito intensamente.
Abri a caixa que guardava minhas cartas para ele. Havia muitas, pois eu lhe escrevera diariamente, sempre que ele estava em reportagens fora da cidade.
Ele tinha todas as cartas arrumadas cuidadosamente, na ordem em que eu as escrevera — e achei aquilo infinitamente comovente, porque Noel era o tipo de homem que precisava revirar quatro gavetas para encontrar abotoaduras ou lenços ou uma caneta-tinteiro ou botões de colarinho.
A primeira carta era para o endereço dele em Nova York.
“NOEL QUERIDO,
“Lembro de ter lhe dito, algumas semanas atrás, que nunca fiquei com o mesmo homem duas vezes, nos anos desde Peter, porque nunca gostei de nenhum deles depois de ter ficado com eles. Portanto isto — para declarar especificamente que gostei de você vinte vezes mais nesta manhã no café da manhã do que na noite passada na hora do jantar.”
Escrevi aquela carta dois meses depois da noite de fins de setembro em que Noel telefonou. Naqueles dois meses decidi que o cabelo dele era do tom do bronze polido (e reclamei com ele que cortava o cabelo curto demais — mas nunca, até o último dia em que o conheci, ele o usou mais comprido.) Decidi que amava a voz dele e o sorriso dele, e o formato das sobrancelhas dele (combinavam exatamente com o cabelo) e as coisas que ele dizia, e o jeito que ele ria, e o fato de que ele acreditava em fazer exercício.
Eu sabia que ele era considerado brilhante. Ouvi uma história sobre ele: que vários editores de cidade, jantando juntos, fizeram listas separadas dos cinco melhores jornalistas de Nova York e que o nome dele foi o único que apareceu em todas as listas. Mas eu conhecera tantas pessoas consideradas brilhantes. Gostei mais de Noel porque ele era tão obviamente sensato, estável e equilibrado. Dava-me uma sensação de grande firmeza estar com ele.
E eu encontrara alguém com quem podia conversar, depois de anos em que eu apenas fazia conversa.
Eu o via quase todas as noites, e não via mais ninguém — exceto Nathaniel e Bill. Conhecia-os bem o suficiente para dizer: “Vou conseguir jantar, mas preciso estar em casa às quinze para as dez. Está bem?”
Noel trabalhava num jornal matutino e terminava às dez ou onze da noite. Caminhávamos, dançávamos, íamos cear. Falávamos sobre política, desarmamento, a Guerra (ele tinha uma condecoração de combate, mas não foi ele que me contou, outra pessoa contou), jornais, publicidade, livros, óperas. Falávamos sobre a infância dele, a minha infância, pessoas que ele conhecera, pessoas que eu conhecera. Arremessávamos os padrões de nossas vidas um contra o outro.
Eu me preocupava, no início, que alguém lhe dissesse que eu era tida como promíscua. Achava que ele não gostaria mais de mim. Tinha certeza de que o amava, quando o vi três vezes, mas não via razão alguma para que ele algum dia me amasse. Eu era apenas uma mulher cujo próprio marido a achara impossível. Com outros homens, eu não me sentira tão humilde, mas era porque eu não me importava se eles algum dia me amariam ou não.
Decidi contar a Noel, eu mesma. Se o conhecimento de que eu fora promíscua fosse fazê-lo parar de me ver, isso doeria menos, imediatamente, do que mais tarde. Então, numa noite de outubro, quando caminhávamos pela parte baixa da Quinta Avenida, eu disse abruptamente:
“Olhe aqui. Não tenha ilusões a meu respeito. Já dormi com mais homens do que consigo lembrar.” Era exagero, mas eu precisava exagerar, para não correr o risco de atenuar.
Ele não pareceu enojado nem chocado, nem sequer surpreso. Disse: “Isso é interessante. O que você estava fazendo — tentando usar o sexo como anestésico para não sei o quê? Normalmente isso não dá certo.”
Eu disse: “Você não precisa ser educado a respeito. Se acha que sou uma pessoa horrível, diga.”
Ele disse: “Sua imbecil adorável — acho que você é a pessoa mais agradável que já conheci. O que quer que tenha acontecido com você a tornou equilibrada e tolerante, e compreensiva, e qualquer um que a conheça deveria ser grato pelo que quer que tenha produzido esse resultado.”
Eu disse: “Ah.” Eu disse: “Você está falando sério — não está apenas sentindo pena de mim?”
Ele disse: “Deus, não. Estou falando sério.”
Alguma coisa em mim que doía horrivelmente em momentos esporádicos, por um longo, longo tempo, parou de doer para sempre.
Passei meu braço pelo dele. “Fico contente que você não se importe, mas de qualquer forma eu parei.”
Ele riu de mim. Era tão amigável que eu ri também. “Devem existir milhares de homens amargamente decepcionados em Nova York, Pat. Você não se importa que eu a provoque a respeito, se importa? . . . Prometo nunca pedir que você fique comigo, se eu puder evitar.” O tom de sua voz mudou. “Por várias razões, não fico com mulheres por quem eu provavelmente me importaria. Parece um tanto injusto.”
Ele nunca havia se referido ao seu casamento antes.
“Eu sei sobre o seu casamento, Noel”, eu disse. “Kenneth me contou.”
“Ah”, ele disse.
“Noel, vamos parar no Childs e tomar café e bolos de manteiga. Estou com fome.”
Depois, falamos sobre nossos casamentos também, apenas como mais uma das coisas que nos haviam acontecido.
Noel não me beijou por mais um mês. Uma vez, nesse intervalo, ele realmente pôs os braços em volta de mim — enquanto atravessávamos o Madison Square Park — porque eu disse que, dada a escolha entre ficar com Gene Tunney ou Jack Dempsey, eu escolheria Dempsey, alegremente.
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