Ex-esposaPart 30
Página 1 de 9
Depois do jantar, fomos ao apartamento dele. Eu lhe disse: “Vá misturar um uísque com soda para você. . . . Há uma coisa que eu quero lhe dizer, e quero que você olhe pelas janelas, e pense em tempo e espaço e relatividade, enquanto eu falo, e não me interrompa até eu terminar.”
Comecei: “Você pode ir para a Ásia, afinal.”
Quando terminei, ele veio e me envolveu com os braços; e passei os dedos pelo cabelo dele, e não falamos nada, por um longo, longo tempo. Depois disso, tivemos alguns debates sobre detalhes . . . mas nenhum homem do tipo dele tem muita vontade de renunciar à aventura, nem mesmo por uma mulher.
Noel ficaria com a Ásia. Ele sofreu bastante, creio, com a ideia de me perder. Talvez sofresse mais, à medida que a Ásia se tornasse comum; mas, enquanto isso, a Ásia era o seu outro Grande Desejo.
Vivemos uma semana em que vivemos como se todas as coisas entre nós durassem desde o começo do Tempo, e fossem durar para sempre. Então recebi um telegrama de Beatrice, que queria saber a que horas na quinta-feira ela deveria chegar, para ir comprar roupas entre os atacadistas elegantes.
Arranjei para tirar a tarde de quinta-feira de folga . . . e, como a sentença dela de usar um tapa-olho preto estava quase terminando, fomos sem constrangimento a várias lojas de roupas por atacado e compramos tweeds, vestidos de noite, suéteres-e-saias, conjuntos de jersey, e chapéus para usar com tudo isso. (Até um turbante de prata para dançar.)
Terminamos a tarde numa sapataria, e descobri com certo divertimento que, embora fosse uma mulher mais alta, os sapatos dela eram de um número menor que os meus.
Havia mais entusiasmo na voz dela do que na semana anterior. Ela disse alegremente ao vendedor de sapatos que estava viajando para Chicago, para ver a mãe, que não visitava havia dez anos.
(Noel se juntaria a ela em Chicago. Ele deixaria Nova York um ou dois dias depois dela.)
Helena não podia nos ver antes das seis e meia. Beatrice me pediu para ir tomar chá com ela, para preencher o intervalo. Eu disse: “Bem, eu estava pensando em ir a um bar clandestino. Conheço um bom, na Rua Cinquenta e Dois, onde mulheres sem acompanhante não chamam atenção.”
A voz dela era como a voz de uma subdebutante convidada para um baile universitário importante. “Oh, podemos ir a um bar clandestino?”, ela disse. “Sabe, meu acidente foi em 1919, antes da Lei Seca, e eu nunca vi um bar clandestino.”
“Que maravilha”, eu disse. “Eu desperdicei minha juventude em tantos deles.”
Fomos à Rua Cinquenta e Dois. Beatrice ficou emocionada com o fato de poder apoiar o pé num corrimão de latão no balcão do bar. Ela tinha lido sobre corrimãos de latão, mas nunca vira um. Tomamos dois Alexanders, e eles não pareceram perturbá-la excessivamente.
Pensei, ao mesmo tempo, que essa garota era apenas um ou dois anos mais velha que eu e que, exceto por uma coisa e outra, teria sido muito mais bonita que eu.
(E teria conservado Noel para sempre, talvez? . . . As chances que determinam a vida das pessoas. Bem, não faz sentido considerá-las longamente. A gente as aceitava. Era mais fácil.)
Helena fizera seis máscaras para Beatrice. Eram coisas lindas — ela devia ter trabalhado até o amanhecer, várias noites seguidas, para terminá-las. Através da largura do apartamento dela, eram espantosamente parecidas com a vida. Mesmo vistas de perto, não havia nada de minimamente grotesco nelas, porque eram muito decorativas.
Havia máscaras de rosto inteiro para usar à noite, e uma máscara de rosto inteiro para usar com roupas esportivas. Havia meias-máscaras também. “E como eu como, usando elas?”, perguntou Beatrice.
Helena explicou que as meias-máscaras foram feitas para isso. . . . “Elas são recortadas, um pouco, em volta da boca. A explicação é complicada, mas você come um biscoito, e vê como é simples.”
Se uma mulher com metade de um rosto pudesse brilhar, Beatrice brilhou quando as experimentou. Suas mãos (que eram mãos bem-feitas, graciosas) pareciam excitadas.
“Elas são maravilhosas”, ela disse. “Tão leves, e tão confortáveis, e bonitas. Quanto devo lhe pagar por elas?”
Helena disse: “Nada. Patricia é uma velha amiga minha.”
Alguma coisa — alguma coisa vagamente familiar na expressão da boca e do queixo nas máscaras de rosto inteiro — me perturbou. Não conseguia entender por quê.
Lucia entrou, para admirar — e Beatrice experimentou cada máscara de novo, para ela. Então Beatrice mostrou todas as suas roupas novas (ela tinha insistido em trazê-las consigo, num táxi) a Helena; e Lucia e eu fomos ao banheiro tomar um gole de uísque.
Lucia disse: “Você está se sentindo bem?”
Eu disse: “Sim. Ela vai embora no meio da semana que vem, sabe, e Noel vai no fim dela.”
Eu disse: “Aquelas máscaras são extraordinárias, não são. Não são apenas decorativas — têm uma individualidade definida, até um charme definido.”
Lucia disse: “Helena sempre gostou de você.”
“O que você quer dizer?”
“Honestamente, você não sabe, Pat? Não havia nada na parte inferior do rosto, nas máscaras de rosto inteiro, que você reconhecesse?”
“Alguma coisa, vagamente, mas não sei o quê.”
Lucia sorriu — seu sorriso que tudo compreende.
“Já viu seu rosto, Pat, quando você estava com um ar tranquilo, e bem satisfeita com a vida? . . . Helena tem um humor sardônico. . . . Ela copiou aquele seu sorriso grave, para acompanhar Noel, por toda a Ásia.”
A caminho do trem suburbano de Beatrice, ela e eu tivemos uma breve conversa. “Talvez você me despreze”, ela disse, “mas espero que não . . . Sinto que lhe devo muito, e pensei . . . se meu filho fosse uma menina, eu poderia dar a ela o seu nome.”
Acendi um cigarro. “Deus é um ironista”, eu disse, mas isso pareceu além da compreensão de Beatrice.
Ela disse: “De qualquer forma. Eu queria lhe dizer . . . que pretendo ser boa para Noel. Sei que ele terá que me deixar sozinha, boa parte do tempo, no Extremo Oriente” (— as palavras conjuravam imagens dos lugares que Noel e eu poderíamos ter visto, juntos . . . os sons e as cores dos bazares, eu nunca os conheceria, agora. Respirei fundo) “mas não vou me opor”, ela disse . . . “Agora que ele vai ser meu marido, realmente oficialmente, pretendo lhe dar toda a liberdade que for possível. Afinal, eu terei o bebê.”
“Isso é sensato, Beatrice”, eu disse. “E, se ele tiver um breve romance com uma gueixa, não o amaldiçoe por isso. Ele voltará, para ver o bebê, e para pegar uma camisa limpa. Isso é casamento.”
“Vou me comportar, Patricia”, ela disse. . . . O trem dela partia em três minutos. Ela parou junto ao portão do trem. “Diga que você não me odeia”, ela disse.
“Não te odeio. Espero que você consiga fazer dar certo, Beatrice.” Depois de dois minutos, agora, eu nunca mais a veria. Por isso, ao menos, eu podia ser grata.
“Beatrice — dizem que há excelentes cirurgiões britânicos no Oriente, e a cirurgia facial se desenvolveu muito, desde a Guerra. . . . Talvez alguma coisa possa ser feita por você, lá.”
Ela sorriu meio sorriso, e ela encontrou uma boa frase de despedida. (Peter, que agora estava quase esquecido, tinha me pedido para encontrar uma, uma vez.) Beatrice disse: “Enquanto isso, há as máscaras . . . você também as usa, não usa?” Ela correu, não sem graça, para pegar seu trem.
Apressei-me para casa, para jantar com Noel.
E o tempo infinito que ele e eu tínhamos sentido que nos estava destinado, juntos, ficou determinado agora como dez dias. Não foram dias infelizes. Falávamos um com o outro como se todos os anos que tínhamos vivido estivessem firmes por trás da nossa compreensão mútua — e como se todos os anos à frente fossem nossos para compartilhar.
Só uma vez falei com ele sobre o pouco tempo que restava. Eu disse: “Entendo melhor agora, sobre os aristocratas franceses, que morreram serenamente na guilhotina. Não acredito que tenham sofrido no fim. . . . Aliviados de toda preocupação com o dia depois de amanhã — estavam serenos. Kenneth se sentia assim, você se lembra?”
Ele disse: “Sim. . . . O único problema é se a gente acrescenta vida aos anos ou anos à vida. . . . Ou foi você que me disse isso, a respeito de outra coisa, Pat?”
Eu disse: “A respeito de uma Ex-esposa, talvez. . . . Noel, seu cabelo é de uma cor destinada a brilhar na minha alma.”
Mas ele estava pensando em cidades asiáticas, onde viveria sua vida — e eu o deixei falar, sobre a possibilidade de aprender chinês, em cinco anos.
“É um contrato de cinco anos, Pat — com opção de renovação pelo mesmo período. Quando eu voltar — talvez eu tenha quarenta e cinco anos.”
(Em dez anos, eu terei trinta e sete — e o que quer que me seja poupado — pedi que me fosse poupado encontrar Noel de novo, quando eu tiver trinta e sete.)
Noel ainda trabalhava no “Times”. Num de seus últimos dias lá, ele foi a Lakehurst, para fazer uma matéria de aviação. Escrevi-lhe uma carta — porque sempre lhe escrevia, quando ele estava em alguma missão fora da cidade. (Tínhamos combinado que eu não lhe escreveria para Yokohama. Não haveria um retorno-de-Yokohama, no qual eu estivesse envolvida. Ele só me escreveria nas matérias . . . que o “Times” publicaria, sobre como os anos passavam, na Ásia.)
Escrevi-lhe, para Lakehurst:
“Por favor, não decida que me importo muito pouco — porque estou levando isto tão calmamente. Torci as mãos por causa disto, um bocado, no fim das contas.
“Você-e-eu aparentemente chegamos ao fim. As relações banais e possessivas e exigentes e estúpidas, nas quais as pessoas se deixam levar, chegam a fins maus cedo ou tarde. Mas o que isso tem a ver com você e eu? Podemos ainda estar sentados diante de uma lareira, quando você tiver oitenta e sete anos e eu setenta e nove, discutindo sabores de vinhos, e de aventuras. Por que não?”
Acreditei nisso, também, por cinco ou dez minutos.
Essa foi minha última carta a Noel.
Coloquei-a de volta na caixa de lata, com as outras, e coloquei o resto das cartas dele para mim, sem ler, na caixa também.
Subi para trocar de vestido.
E pensei, não pela primeira vez, que a vaidade é uma bênção tão grande para as mulheres que deveria ser listada entre as principais virtudes. A lembrança de que a última vez que Noel me viu, eu estava usando um vestido vermelho vivo de Paris, com um chapéu que combinava precisamente com ele, e um casaco de Krimmer cinza novinho em folha, seria um consolo para mim, sempre. Isso podia ser absurdo. Não era menos profundamente verdadeiro.
Voltei ao apartamento dele e pus lenha nova na lareira. Ele entrou.
“Você está muito bonita, Pat”, disse ele. “Já decidiu onde gostaria de jantar?”
“No Dante’s, acho.”
“Ótima ideia... e vamos comer ravigote de carne de caranguejo, filé mignon, Chianti e crêpes Suzette...”
Tínhamos uma noite, uma madrugada e uma manhã para passar. Passamo-las tão alegremente quanto havíamos passado cem outras. Fingimos um para o outro que aquela noite, aquela madrugada e aquela manhã eram iguais a todas as outras.
Fingimos tão bem que, no caminho para o trem dele, senti que estava apenas vendo Noel partir para mais uma missão fora da cidade.
Como sempre, ele me levou pelos portões de embarque, na Grand Central (embora quem não vai viajar deva fazer seus discursos de despedida do lado de fora dos portões) para que pudéssemos conversar um pouco mais. Como sempre, observei o carregador arrumar a bagagem dele. Como sempre, caminhamos até a plataforma, e Noel me deu um cigarro.
Mas descobri que não conseguia segurar meu cigarro com firmeza, ao lado daquele trem. Então joguei-o fora, e Noel jogou o dele fora.
Eu disse: “Quanto tempo temos?”
Ele disse: “Dois ou três minutos.”
Eu disse: “Não quero ser casual. Quero dizer que vou te amar para todo o sempre, seja lá o que isso signifique...”
“Seja lá o que signifique, Pat, eu também.”
Ele tirou o chapéu. Era um jovem de cabelos ruivos do tom do bronze polido e brilhante, e um queixo bonito, que quase tinha uma covinha, e um sobretudo de tweed cinza, e um cachecol cinza que eu lhe tinha dado. Eu queria me lembrar exatamente de como ele era... queria pensar em algumas palavras que fossem significativas — que o fizessem feliz ao lembrar.
Comentários (0)