A escrava IsauraPart 23

Part 23

Entendeo que para sahir-se bem na terrivel conjunctura em que se achava, só havia um caminho,--matar o seo antagonista ou morrer-lhe ás mãos,--e cedendo a essas suggestões da cólera e do desespero, saltou da cadeira em que estava, agarrou Leoncio pela góla e sacudindo-o com força:

--Algôz!--bradou espumando de raiva,--ahi tens a tua escrava! Mas antes de leval-a, has-de responder pelos insultos que me tens dirigido, ouviste?... ou acaso pensas que eu tambem sou teo escravo?...

--Está louco, homem!--disse Leoncio amedrontado.--As leis do nosso paiz não permittem o duello.

--Que me importão as leis!... para o homem de brio a honra é superior ás leis, e se não és um covarde, como penso....

--Soccorro, que querem assassinar-me,--bradou Leoncio desembaraçando-se das mãos de Alvaro, e correndo para a porta.

--Infame!--rugio Alvaro, cruzando os braços e rangendo os dentes n’um sorrir de cólera e desdem...

No mesmo momento, attrahidos pelo barulho, entravam na sala de um lado Isaura e Miguel, do outro o official de justiça e os guardas.

Isaura estava com o ouvido aguçado, e do interior da casa ouvira e comprehendera tudo.

Vio que tudo estava perdido, e correo a atalhar o desatino, que por amor della Alvaro ia commetter.

--Aqui estou, senhor!--forão as unicas palavras que pronunciou apresentando-se de braços cruzados diante de seo senhor.

--Eil-os ahi; são estes!--exclamou Leoncio indicando aos guardas Isaura e Miguel. Prendão-os!... prendão-os!...

--Vae-te, Isaura, vae-te.--murmurou Alvaro com voz trémula e sumida, achegando-se da captiva.--Não desanimes; eu não te abandonarei. Confia em Deos e em meo amor.


Uma hora depois Alvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha este mui ancho e lampeiro dar conta de sua commissão, e sofrego por embolsar a somma convencionada.

--Dez contos!... oh!--vinha elle pensando.--É uma fortuna! agora sim, posso eu viver independente!... Adeos, surrados bancos de Academia!. adeos, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando á toa!... vou atirar-vos pela janella a fóra; não preciso mais de vós; meo futuro está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, commendador, barão, e verão para quanto presto!...

E á força de multiplicar calculos de usura e agiotagem, já Martinho havia centuplicado aquella somma em sua imaginação.

--Meo caro senhor Alvaro,--veio logo dizendo sem mais preambulos,--está tudo arranjado á medida de nossos desejos. Pode Vª. Sª. viver tranquillo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguem mais o importunará. De feito o procedimento de Vª. Sª. nesta questão tem sido muito bello e digno de elogios; é proprio de um coração grande e generoso como o de Vª. Sª. Não se dá maior desaforo! no captiveiro uma menina tão mimosa e tão prendada!... Agora aqui está a carta, que escrevo ao lorpa do sultãosinho. Prego-lhe meia duzia de carapetões, que o hão-de desorientar completamente.

Assim fallando Martinho desdobrou a carta, e já começava a lel-a, quando Alvaro impacientado o interrompeo.

--Basta, senhor Martinho,--disse-lhe com máo humor;--o negocio está arranjado; não preciso mais de seos serviços.

--Arranjado!... como?...

--A escrava está em poder de seo senhor.

--De Leoncio!... impossivel!

--Entretanto, é a pura verdade; se quizer saber mais vá á policia, e indague.

--E os meos dez contos?...

--Creio que não lh’os devo mais.

Martinho soltou um urro de desespero, e sahio da casa de Alvaro com tal precipitação, que parecia ir rolando pelas escadas abaixo.

Descrever o misero estado, em que ficou aquella pobre alma, é empreza em que não me metto; os leitores que fação idéa.

O cão faminto illudido pela sombra, largou a carne que tinha entre os dentes, e ficou sem uma nem outra.

Capitulo XIX.

--Olha como arranjas isso, Rosa; esta rapariga é mesmo uma estouvada; não tem jeito para nada. Bem mostras que não nasceste para a sala; o teo lugar é na cosinha.

--Ora vejão lá a figura de quem quer me dar regras!... quem te chamou aqui, intromettido? O teo lugar tambem não é aqui, é lá na estribaria. Vae lá governar os teos cavallos, André, e não te intromettas no que não te importa.

--Cala-te dahi, toleirona;--replicou André mudando de lugar algumas cadeiras.--O que sabes é só tagarellar. Não é aqui o lugar destas cadeiras... Olha como estão estes jarros!... ainda nem alimpaste os espelhos!... forte desajeitada e preguiçosa que és!... No tempo de Isaura andava tudo isto aqui, que era um mimo; fazia gosto entrar-se nesta sala. Agora, é isto. Está claro que não és para estas cousas.

--Essa agora é bem lembrada!--retorquio Rosa, altamente despeitada.--Se tens saudades do tempo de Isaura, vae lá tiral-a do quarto escuro do tronco, onde ella está morando. Esse de certo ella não ha-de ter gosto para enfeital-o de flores.

--Cala a boca, Rosa; olha que tu tambem lá podes ir parar.

--Eu não, que não sou fujona.

--Por que não achas quem te carregue, senão fugirias até com o diabo. Coitada da Isaura! uma rapariga tão boa e tão mimosa, tratada como uma negra da cosinha! e não tens pena della, Rosa?

--Pena por quê, agora?... quem mandou ella fazer das suas?

--Pois olha, Rosa, eu estava prompto a aguentar a metade do castigo que ella está soffrendo, mas na companhia della, está entendido.

--Isso pouco custa, André; é fazer o que ella fez. Vae, como ella, tomar ares em Pernambuco, que infallivelmente vaes para a companhia de Isaura.

--Quem déra!... se soubesse que me prendião com ella, isso é que era um fugir. Mas o diabo é que a pobre Isaura agora vae deixar a nós todos para sempre. Que falta não vae fazer nesta casa!...

--Deixar como?

--Você verá.

--Foi vendida?...

--Qual vendida!

--Alhegada?

--Nem isso.

--Está forra?...

--Que abelhuda!... Espera, Rosa; tem paciencia um pouco, que hoje mesmo talvez você venha a saber tudo.

--Ora ponha-se com mysterios ... então o que você sabe, os outros não podem saber?...

--Não é mysterio, Rosa; é desconfiança minha. Aqui em casa não tarda a haver novidade grossa; vae escutando.

--Ah! ah!--respondeo Rosa galhofando.--Você mesmo está com cara de novidade.

--Psio!... bico calado, Rosa!... ahi vem nhonhô.

Pelo dialogo acima o leitor bem vê, que nos achamos de novo na fazenda de Leoncio, no municipio de Campos, e na mesma sala, em que no começo desta historia encontramos Isaura entoando sua canção favorita.

Cerca de dous mezes são decorridos depois que Leoncio fôra ao Recife apprehender sua escrava. Leoncio e Malvina tinhão-se reconciliado, e vindos da côrte tinham chegado á fazenda na vespera. Alguns escravos, entre os quaes se acham Rosa e André, estão asseando o soalho, arranjando e espanando os moveis daquelle rico salão, testemunha impassivel dos mysterios da familia, de tantas scenas ora tocantes e enlevadoras, ora vergonhosas e sinistras, e que durante a ausencia de Malvina se conservára sempre fechado.

Qual é porém a sorte de Isaura e de Miguel, desde que deixárão Pernambuco? que destino deo Leoncio ou pretende dar áquella?... por que maneira se reconciliou com sua mulher?

Eis o que passamos a explicar ao leitor, antes de proseguirmos nesta narrativa.

Leoncio tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservára na mais completa e rigorosa reclusão. Não era isto só com o fim de castigal-a ou de cevar sua feroz vingança sobre a infeliz captiva. Sabia quanto era ardente e capaz de extremos, o amor que o jovem pernambucano concebera por Isaura; tinha ouvido as ultimas palavras que Alvaro lhe dirigira = confia em Deos, e em meo amor; eu não te abandonarei =.--Era uma ameaça, e Alvaro, rico e audacioso como era, dispunha de grandes meios para pôl-a em execução, quer por alguma violencia, quer por meio de astucias e insidias. Leoncio portanto não só encarcerava com todo o rigor a sua escrava, como tambem armou todos os seos escravos, que dahi em diante distrahidos quasi completamente dos trabalhos da lavoura, vivião em alerta dia e noite como soldados de guarnição a uma fortaleza.

Mas a alma ardente e feroz do joven fazendeiro não desistia nunca de seo louco amor, e nem perdia a esperança de vencer a isenção de Isaura.

E já não era só o amor ou a sensualidade, que o arrastava, era um capricho tyrannico, um desejo feroz e satanico de vingar-se della e do rival preferido. Queria gozal-a, fosse embora por um só dia, e depois de profanada e polluida, entregal-a desdenhosamente ao seo antagonista, dizendo-lhe:--Venha comprar a sua amante; agora estou disposto a vendel-a, e barato.

Encetou pois contra ella nova campanha de promessas, seducções e protestos, seguidos de ameaças, rigores e tyrannias. Leoncio só recuou diante das torturas e da violencia brutal, não por que lhe faltasse ferocidade para tanto, mas por que conhecendo a tempera heroica da virtude de Isaura, comprehendeo que com taes meios só conseguiria matal-a, e a morte de Isaura não satisfazia o seo sensualismo, e nem tão pouco a sua vingança. Portanto tratou de meditar novos planos, não só para recalcar debaixo dos pés o que elle chamava o orgulho da escrava, como de frustrar e escarnecer completamente as vistas generosas de Alvaro, tomando assim de ambos a mais cabal vingança.

Além de tudo, Leoncio via-se na absoluta necessidade de reconciliar-se com Malvina, não que o pundonor, a moral, e muito menos a affeição conjugal a isso o induzissem, mas por motivos de interesse, que em breve o leitor ficará sabendo. Com esse fim pois, Leoncio foi á côrte e procurou Malvina.

Além de todas as más qualidades que possuia, a mentira, a calumnia, o embuste, erão armas que manejava com a habilidade do mais refinado hypocrita. Mostrou-se envergonhado e arrependido do modo por que a havia tratado, e jurou apagar com o seo futuro comportamento até a lembrança de seos passados desvarios. Confessou com uma sinceridade e candura de anjo, que por algum tempo se deixára enlevar pelos attractivos de Isaura, mas que isso não passára de passageiro desvario, que nenhuma impressão lhe deixára na alma.

Além disso assacou mil aleives e calumnias por conta da pobre Isaura. Allegou que ella, como refinada loureira que era, empregára os mais subtis e ardilosos artificios para seduzil-o e provocal-o, no intuito de obter a liberdade em troco de seos favores. Inventou mil outras cousas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa seduzida por um galan, que ha muito tempo a requestava, sem que elles o soubessem; que fôra este, quem fornecêra ao pae della os meios de alforrial-a, e que não o podendo conseguir combinárão de mãos dadas e effectuárão o plano de rapto; que chegando ao Recife, um moço que tanto tinha de rico, como de extravagante e desmiolado, enamorando-se della a tomára a seo primeiro amante; que Isaura com seos artificios, dando-se por uma senhora livre o tinha enleado e illudido por tal forma, que o pobre moço estava a ponto de casar-se com ella, e mesmo depois de saber que era captiva não queria largal-a, e praticando mil escandalos e disparates estava disposto a tudo para alforrial-a. Fôra das mãos desse moço, que elle a fôra tomar no Recife.

Malvina, moça ingenua e credula, com um coração sempre propenso á ternura e ao perdão, deo pleno credito a tudo quanto aprouve a Leoncio inventar não só para justificar suas faltas passadas, como para predispor o comportamento que dahi em diante pretendia seguir.

Na qualidade de esposa offendida irritára-se outróra contra Isaura, quando surprehendêra seo marido dirigindo-lhe fallas amorosas; mas o seo rancor ia-se amainando, e se desvaneceria de todo, se Leoncio não viesse com falsas e aleivosas informações attribuir-lhe os mais torpes procedimentos. Malvina começou a sentir por Isaura desde esse momento, não odio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de compaixão, tal qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.

0

Comentários (0)

Entre para deixar um comentário.
  • Ainda não há comentários. Comece a conversa.